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A princípio devo manter o Cenas do Cotidiano, mas apenas para publicação de crônicas relacionadas à situações do dia-a-dia, que afinal, foi como o blog nasceu, ainda em 2006.


Ao chegar em casa e ligar a televisão para me distrair enquanto disfarçava a bagunça no quarto, vi que passava um filme já pela metade. Era mais um daqueles pastelões melodramático norte-americanos, um primor na arte da embromação. Acabei me prestando a sentar e acompanhar o filmeco, que falava do vôo 93 da American Airlines, um daquele que caiu durante os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001. Esse vôo, para quem não se lembra, foi aquele último a ir ao chão, onde os passageiros, já cientes da missão suicida dos terroristas à bordo, tentaram reagir e tomar o controle da aeronave. Para ser sincero, eu estava mesmo era um tanto curioso para saber como seria a cena dos mocinhos morrendo no final, uma grande inovação, em se tratando de filme americano.
Antes do início é aquela expectativa! O melhor da festa é esperar por ela, já dizia a velha máxima. Para o Brasil, mais do que qualquer outro país no mundo, ela cai como uma luva. No ano das olimpíadas, a contagem regressiva segue mês a mês, até a grande cerimônia de abertura, que é transmitida com pompa e com recordes de audiência. E quando a numerosa delegação brasileira entra no estádio, o clima é de otimismo e confiança: “vamos todos torcer por muitas medalhas para o Brasil”, comenta o narrador.
- Quer saber? Tem um monte de coisas que me irritam em você.
Só para nos situarmos: Em 2005, todos lembram, tivemos no Brasil um referendo questionando a opinião popular sobre a proibição do comércio de armas, artigo previsto no estatuto do desarmamento. Na ocasião, após acalorados debates sustentados por ambos os pontos de vista, acabou vencendo a proposta que ia contra a proibição do comércio de armas de fogo e munição no país.
A noite de terça feira custa a passar. Sentados nas classes, cerca de trinta futuros engenheiros apreciam a exposição de um tema indigesto. À frente de um quadro negro tomado por cálculos, deduções, matrizes, integrais e equações diferenciais, um professor septuagenário despeja o conteúdo da sua disciplina para dezenas de expectadores entediados. E lá estou eu, fazendo parte do cenário.
A cada ano, no entanto, este número ia aumentando, até que em 2004, quando o Ministério da Educação criou o Programa Universidade para Todos (ProUni) e vinculou a concessão de bolsas em universidades privadas à nota obtida no exame, o número de inscritos misteriosamente cresceu de forma exponencial. Desde então, este número vem superando com folga a marca dos três milhões.
Um bom exemplo disso seria o Zé Tonico, guri inteligente e esforçado que era sempre visto por aí com seus tênis Conga de segunda mão e suas roupas compradas por sua mãe em “promoções de balaio” no Mercado Público da cidade. Seu pai saía todos os dias bem cedo, em busca de uns bicos que garantiriam a comida na mesa da família de oito filhos. Obviamente, este panorama não muito colorido colocara Zé Tonico à mercê do ensino público. Estudava na Escola Municipal “Professorinha Carmélia Viana Lurdes Conceição dos Passos”, que apesar de não ser nenhuma Harvard, pelo menos dispunha de uma biblioteca, mirradinha que só vendo, mas de onde o Zé Tonico retirava livros surrados que lhe serviam de lazer durante os finais de semana chuvosos.
Este mesmo Zé Tonico, orientado poucos anos atrás por algum benfeitor, acabou se inscrevendo para a tal da prova do Enem, onde, por sinal, se deu muito bem. A boa pontuação colocou o rapaz na cara do gol, em uma jogada que iria projetá-lo para realizações com as quais vinha sonhando desde a adolescência. Tendo conquistado uma bolsa integral de estudos em uma renomada universidade, a essa altura ele já passa da metade do curso de graduação e está com tantos planos na cabeça que mal consegue administrá-los todos. Em pouco tempo estará formado, trabalhando por um salário digno e dando orgulho aos seus pais e uma chance a mais aos seus irmãos.
Assim como o Zé Tonico, milhares de estudantes vêm se beneficiando do Enem e do ProUni, que parecem estar favorecendo quem realmente precisa e merece. Por tudo isso, o aniversário de uma década do Enem merece comemoração, já que ele segue firme e forte no sistema educacional brasileiro, às vezes tão manco que chega a beirar o insustentável. Merece ainda festinha com bolo, brigadeiros, balões e presentes. E o que dar de presente? O Enem é uma idéia que parece ter dado certo, é também uma questão que deveria provocar reflexões. Reflexões, aí está! Vamos embrulhá-las todas para presente. Ele vai adorar.

É sexta feira, cerca de 17h30min. Estou no trem, retornando para casa após o trabalho. Vagão cheio, temperatura na casa dos 35 graus. Estou de pé, com uma mão me apoio e com a outra equilibro um encorpado volume de um guia de viagens da América do Sul. Entretido pelas suas páginas e com a cabeça a uns 5000 km dali, mal percebo o que se passa ao meu redor.
Pelo jeito não adiantou nada o nosso presidente espernear, pois acabaram cortando mesmo a CPMF. Com uma teta a menos para mamar, o governo imediatamente começou a correr atrás de outra fonte. Essa busca, porém, representa grandes possibilidades de novos prejuízos ao contribuinte. Até aí nenhuma surpresa, afinal, quem prova um doce, acaba não querendo mais passar sem ele.