10 maio 2008

Os fins justificam os meios, mas os meios desconhecem os fins.

Protestos, quebra-quebras, revoluções, atos públicos, ocupações... Movimentos legítimos para reivindicação por direitos ou badernas generalizadas? Não é de hoje que a pergunta paira no ar.

Maio de 2008. Pelos corredores da universidade, cartazes anunciam debates relacionados ao quadragésimo aniversário de um evento que ficou marcado na história da sociedade. Junto com os cartazes, fotografias retratam estudantes em confronto com a polícia, ou pichando frases de efeito nos muros da cidade.

Neste mês de maio, celebram-se os 40 anos do “maio de 68”, que é como ficaram mundialmente conhecidos os confrontos ocorridos naquele ano nas ruas de Paris, surgidos inicialmente como um protesto estudantil contra o autoritarismo nas universidades (leia-se proibição de estudantes de ambos os sexos freqüentarem o mesmo dormitório) e que acabou transformando-se rapidamente em uma contestação ao governo, principalmente após a adesão dos operários da cidade ao movimento. Todo aquele barulho acabou servindo de estopim para uma série de transformações políticas e comportamentais, que afetaram profundamente a sociedades da época, com reflexos que perduram até os dias atuais.

Como se pode perceber, já não é de hoje que idéias revolucionárias entram em conflito com administrações conservadoras. O conservadorismo, genericamente falando, sempre tendeu a assumir ares pejorativos, enquanto os ideais revolucionários geralmente estiveram associados à jovialidade e ao coletivismo. Quando imaginamos episódios como o maio de 68, a primeira coisa que costuma vir à cabeça são imagens de confrontos e protestos acalorados, da juventude libertária contra os “velhotes retrógrados e caretas” que costumam estar por cima da carne seca. Mais do que questionadores, o papel dos estudantes parece ser, via de regra, o de oposição ao regime, seja ele qual for. O que se passava na cabeça dos idealizadores daquela revolução de 68, grosso modo, é o mesmo que continua incutido nos revolucionários do século 21. Ainda que o pano de fundo seja outro, o conceito continua girando em torno de uma oposição a um regime, a um sistema, a um método ou a uma simples ação com a qual não há concordância. O “ser revolucionário”, passou a estar associado diretamente à participação em protestos e outros atos impactantes, com o objetivo claro de chamar atenção para uma determinada causa.

Talvez este seja mesmo o único recurso que certas minorias, no “alto” das suas limitações, dispõem para expor suas aflições. Mas mesmo considerando a enorme dificuldade que estas classes encontram para despertar a atenção dos governantes, será que isso lhes dá o direito de, deliberadamente, causar transtornos aos demais cidadãos? Mesmo o maior simpatizante deste tipo de movimento manteria sua opinião caso se visse estagnado em uma avenida bloqueada e com sua esposa dando à luz no bando de trás do seu Fiat 147? A questão é mais complexa do que parece, e já várias vezes me flagrei refletindo sobre isso após argumentações com colegas cujas opiniões divergem das minhas.

Na verdade, o que mais perturba nessa história toda, são as dúvidas que surgem em relação ao real engajamento de parte daqueles que engrossam o caldo do efetivo nas ruas. A força dos gritos não parece corresponder às ideologias, ou mesmo ao simples conhecimento da causa reivindicada. Além dos gaiatos que encontram ali uma excelente oportunidade para escapar daquela aulinha chata de português, temos também os que atiram pedras apenas para terem historinhas para contar aos netos, ou para proclamarem orgulhosos por aí como enfrentaram (e apanharam) da polícia.

Apesar do teor dos comentários, ainda compreendo que poucas maçãs podres são capazes de estragar toda uma carga de bons frutos. Obviamente, isso só se aplica para as caixas que possuem bons frutos.

3 comentários:

Léo Fernandes disse...

Eu diria que os fins não justificam os meios, mas os meios usados não invalidam os fins.

Os jovens costumam ter uma visão estreita da realidade, por falta de experiência, e acham que vão consertar o mundo com algumas poucas ações, sem perceber que, como no jogo de "pega varetas", é preciso analisar o conjunto para se certificar de que suas boas intenções não causarão mais mal do que bem.

Ou que não estão estão sendo usados como massa de manobra.

De qualquer forma, esse entusiasmo da juventude por fazer e acontecer é, muitas vezes, o que leva a mudanças positivas, entre outras coisas porque eles se jogam de cabeça, achando-se invulneráveis e ignorando os riscos que correm.

Alguns se arrebentam e ficam pelo caminho, ou sobrevivem com cicatrizes, mas a sociedade tem a chance de avançar mais um pouco a cada geração.

Margarida disse...

Olhando o que o Léo escreveu, tenho minhas dúvidas se "a sociedade avança mais um pouco a cada geração". O joio e o trigo sempre convivem em toda parte e se misturam em maior ou menor grau, até que, quando a contaminação atinge um grau insuportável, acontece uma reação. Mas as reações são quase sempre extremadas na direção oposta, e é muito difícil encontrar o ponto de equilíbrio.
Penso que isso nunca vai deixar de acontecer, e cada geração tem que aprender a enfrentar seus conflitos próprios, que vão mudando de nome e de roupagem mas no fundo é sempre a mesma coisa.

lequita disse...

bastante interessante o comentário do 'léo', e a 'margarida' contradiz bem ao dizer que "é muito difícil encontrar o ponto de equilíbrio". e eu concordo. ao mesmo tempo que concordo contigo - o ex-revolucionário não vai estar contente quando estiver trancado nas ruas bloqueadas, com seu fiat cento e quarenta e sete e sua esposa dando à luz a mais um filho de um ex-revolucionário - concordo com o 'léo' quando ele afirma que estes jovens não tem noção do que estão fazendo. ao menos alguns deles. porém um pouco de "barulho" às vezes é bom para alertar o mundo de algumas situações corriqueiras e injustas que afloram mundo afora. gostei do título.

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