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19 janeiro 2008

“Fróide” explica


Animais selvagens batendo cabeças em disputa por território e motoristas cantando os pneus de seus carros em disputa por atenção. Alguma diferença?

A RBS TV lançou, no final do ano passado, uma campanha de conscientização contra acidentes nas estradas, intitulada “Violência no trânsito: isso tem que ter fim!”, onde propagandas educativas foram endereçadas principalmente aos jovens motoristas, comprovadamente os maiores causadores de acidentes. Na fase atual da campanha, três atrizes aparecem condenando categoricamente todas aquelas atitudes agressivas, típicas de jovens ao volante. Veja as falas de duas delas:

“O tipo de homem que eu não gosto é aquele que entra no carro e sai correndo feito um desvairado, se achando o cara, o bacana, o garanhão. Sabe o que eu fico pensando? Se ele é rapidinho assim no trânsito, deve ser rapidinho em tudo...”.

“O tipo de homem que não tem chance comigo é o homem grude. Sabe aqueles que andam grudados na traseira dos outros? Eu jamais sairia com um cara desses. Pensa bem, se ele faz isso no trânsito, deve fazer também na fila do cinema, na sala de embarque do aeroporto, no vestiário do clube, hum? Vai saber...”

Em passeios noturnos, próximos a bares e outros points urbanos, percebe-se facilmente como essas atitudes agressivas ainda fazem sucesso com o sexo oposto. Salvo exceções, continua-se achando aquilo tudo muito lindo, muito másculo. No entanto, graças a esses depoimentos na TV, a moral dos garanhões da távola motorizada tem escorrido ralo abaixo. Pelo menos assim esperamos.

E por que só os homens se comportam desta forma? Por que somos uns idiotas? É, provavelmente isso também. Mas creio que a principal razão esteja no sangue, literalmente, já que a combinação testosterona e volante tende a ser bastante perigosa. Se, além disso, houver nas redondezas certos representantes da fauna urbana – leia-se gatinhas, potrancas e cachorras, aí sim a mistura possui grande chance de se tornar letal. Por razões nada desconhecida, a rapaziada adora usar suas gaiolinhas de lata como chamariz para as fêmeas, igualzinho ao que ocorre nas demais espécies do reino animal. Já viram um pavão exibindo orgulhosamente suas penas coloridas para impressionar a companheira? Pois é.

Um dos motivos que me fazem crer no sucesso da campanha na TV, é o golpe certeiro que ela desfere nesses bobos da corte, atingindo em cheio seu ponto mais sensível: o ego machão. Quando belas mulheres passam a fazer chacota sobre essa necessidade ridícula de exibição constante de virilidade, a mensagem tem muito mais chance de ser assimilada do que outras tantas que fizeram uso de frases bonitinhas ou imagens chocantes. A triste realidade, minhas caras colegas, é que para muito homem por aí, ter a masculinidade questionada é muito mais ofensivo do que qualquer outra coisa. Fale mal da mãe dele, mas não fale mal do seu pinto.

Será que essa campanha vai realmente alcançar resultados mais significativos que suas antecessoras? Suspeito que sim e, se acontecer mesmo, será um tanto quanto curioso, para não dizer cômico. O ser humano é ou não é a criatura mais fascinante de todas? Não foi à toa que Sigmund Freud fez sua fama.

05 janeiro 2008

Cumprindo tabela no reveillon


“Adeus ano velho, feliz ano novo”. Novamente nos despedimos do ano velho, já com aspecto roto, gasto, bem diferente de quando ele iniciou: novinho, todo limpinho e com cheiro de talquinho de nenê.

O início de cada ano é um marco de mudanças para aqueles que se propõe a encarar novos desafios, e também um ponto de referência, que nos ajuda a lembrar que devemos esquecer as desilusões e direcionar nosso pensamento para o futuro, ou, melhor ainda, para o presente. É o momento de fazermos novos planos e colocarmos em prática os antigos. Após as doze badaladas, dívidas são perdoadas, intrigas são eliminadas e dietas são iniciadas.

No entanto, se você é daqueles que não vêem a coisa dessa forma e encaram a virada como um dia depois do outro, não se acanhe. Eis uma receita simples para deixar o início do ano marcado na sua memória, sem riscos desse dia acabar passando em branco.

Para começar, compareça à festa em alguma praia ou avenida lotada. Vá munido de uma garrafa de champanhe barato, a ser generosamente borrifado na cabeça de todos à sua volta. Não aja de maneira inconseqüente, mas seja criterioso na escolha de suas vítimas: priorize as pessoas de banho tomado e de roupinha branca, não tem como errar. Dê também preferência às moças com cabelo alisado às custas daquele engenhoca conhecida como “chapinha”. Leve consigo pelo menos duas caixas de rojões barulhentos - os mesmos que você usou para comemorar o rebaixamento do time adversário, e exploda tudo a poucos metros dos seus vizinhos. Após o espetáculo dos fogos de artifício, corra para junto do palco montado na praia e assista ao pagodão patrocinado pela prefeitura. Depois do show, caso a tarefa de voltar para casa lhe pareça excessivamente árdua e irrelevante, acomode-se na areia e se entregue a Morpheus, até ser acordado na manhã seguinte, com sua cabeça sendo massageada pela vassoura de um gari.

Para os mais ortodoxos ou os menos corajosos, existe ainda a opção de iniciar o ano no aconchego do próprio lar. Neste caso, é muito importante não sucumbir à televisão, evitando assim sua exposição às ondas sonoras e eletromagnéticas nocivas à saúde, emitidas pela programação de fim de ano e propagadas por Faustão, Roberto Carlos, Xuxa e Renato Aragão. Longe das drogas e de cara limpa, aproveite o ar fresco da noite, vá à varanda e assista ao espetáculo quase particular de pirotecnia que seu vizinho fez o favor de lhe proporcionar, sem ônus algum.

Seja lá qual tenha sido a sua programação, mantenha o pensamento positivo e acolha 2008 com todo o otimismo que ele merece. Talvez ainda não seja este o ano em que você vai perder os quilinhos a mais ou que sua vida vá dar um grande salto. Você provavelmente não irá ganhar na loteria e nem mesmo nenhuma daquelas ladainhas anunciadas no seu horóscopo irá se realizar. No entanto, você esta aí, com saúde, tem comida na sua geladeira e você é perfeitamente capaz de ler este texto. Grandes coisa? Você é que pensa! Há muito ao seu alcance, possivelmente mais do que imagina. Estenda a mão e escolha os bons livros da prateleira. Providencie uma bússola e escolha corretamente seus caminhos. Tire proveito do fato de não haver ninguém chicoteando seu lombo e te impedindo de buscar estas coisas. E a partir daí, faça você mesmo o seu “feliz ano novo”.

E que todos nós o façamos.

11 novembro 2007

Criando o bicho solto: um professor e seus alunos

O que acontece quando estudantes universitários são tratados como adultos – o que de fato são, e são deixados livres para agirem sob as ordens de suas próprias consciências? Para os casos onde essa consciência permite que o aprendizado seja construído “nas coxas”, deve o professor tomar uma atitude repreensiva? Ou o melhor a fazer é deixar que cada um colha os respectivos frutos?

Faculdade, dia de prova. Os alunos, no entanto, não parecem muito apreensivos. Eles sabem que, no final das contas, o professor vai acabar aliviando. Durante a prova, a cola come solta e as questões são resolvidas em grupo, em uma demonstração de espírito de coletividade de dar inveja a Karl Marx.

No primeiro dia de aula, o professor havia explicado sua metodologia de trabalho. Dissera ele: “Não estamos mais no primário, vocês são adultos, não cabe a mim ficar controlando freqüência ou servindo de babá de marmanjo para ver se alguém está colando. Vocês devem ser responsáveis pelos seus atos, se agirem de má fé, mais cedo ou mais tarde serão naturalmente selecionados pelo mercado de trabalho”. Num primeiro momento, até dei razão para ele. Passadas algumas aulas, porém, fiquei pensando se esse tiro não correria o risco de sai pela culatra.

Não raro, estudantes acabam produzindo mais quando se vêem em situações incômodas. Diante de uma nota humilhante ou da perspectiva de uma reprovação, a dedicação costuma surgir, atingindo níveis até bastante significativos. Mais do que nunca, a necessidade faz a ação. Quando não há cobrança de espécie alguma, os alunos, por mais adultos e responsáveis que sejam, acabam se dando ao luxo de estudarem o mínimo necessário, apenas o suficiente para alcançarem a aprovação. Obviamente, isso passa longe do ideal. Para alguém que trabalha durante o dia e freqüenta a faculdade durante a noite, é perfeitamente compreensível odiar a idéia de ter professores exigentes e que tenham por hábito abarrotar seus alunos com exercícios e trabalhos. No entanto, os que tiverem o mínimo de discernimento, vão acabar se dando conta que a única maneira de evitar maiores turbulências é achatar o traseiro na cadeira durante um ou outro final de semana.

Com exceção dos CDF´s de plantão, capazes de promoverem sessões de auto-flagelação quando perdem pontos nas avaliações, as pessoas “normais” geralmente se dão por satisfeitas quando atingem a aprovação plena, especialmente quando conseguem realmente aprender o que foi ensinado. Até aí nada de errado, já que a assimilação do conteúdo é de longe muito mais importante do que uma nota de dois dígitos no boletim.

Grave mesmo são os casos onde a aprovação é obtida exclusivamente na base da cola. Para estes casos, talvez o professor não devesse omitir o controle sobre seus alunos, certificando-se que os estudantes estão pelo menos buscando o aprendizado e não a decoreba. É uma lástima constatar o semi-analfabetismo de alguns alunos do ensino superior, incapazes de expressarem-se de forma satisfatória pela linguagem escrita, ou as vezes até mesmo oralmente. Já nas exatas, um aluno pode, nos casos mais extremos, ser capaz de resolver uma equação até bem cabeluda sem entender bulhufas do que está fazendo, apenas seguindo as famosas “receitas de bolo”.

A busca pelo diploma universitário tem feito com que bastante gente se esqueça de que o “canudo” é só o primeiro pré-requisito para se alcançar uma posição gratificante no mercado de trabalho. Outros tantos incluem responsabilidade, disposição, o gosto pela profissão, a dedicação, além é claro, do verdadeiro domínio do conhecimento inerente a sua área de atuação, que se espera ter sido construído junto com o diploma, o pedaço de papel que atesta a existência desse conhecimento. É uma pena, mas vistos sob este ponto de vista, alguns diplomas são verdadeiros cheques sem fundo.

16 setembro 2007

O lado “Renan Calheiros” de todos nós

Diante de todo esse bafão gerado pela absolvição do atual presidente do Senado Federal, os jornais, as revistas e a internet ficam repletos de reportagens e comentários de gente indignada por conta da mais recente e indigesta pizza servida no planalto central. O repúdio comeu solto e a esmagadora maioria não poupou ofensas pessoais aos excelentíssimos caras de pau responsáveis pela absolvição de alguém que, ao que tudo indica, andava fazendo bastante caca por aí. Os mais exaltados expressavam, de forma não muito polida, sentimentos que iam da vergonha ao nojo.

Atos como estes são perfeitamente compreensíveis. Nosso primeiro impulso, diante do sorriso de deboche do acusado, é xingar os senadores até a quinta geração, sem esquecer, é claro, do nosso líder maior, nosso guru da administração, nosso presidente, o homem com a visão além do alcance, que sempre vê o que ninguém mais consegue enxergar, e que insiste em tratar as crises do seu governo como se fossem o filho malcriado do vizinho.

Já faz muito tempo que os brasileiros queixam-se de seus representantes. Tenho portanto minhas dúvidas, sobre até que ponto isso basta para que algo efetivamente mude de rumo nessa política adoentada.

Há um dito popular que afirma: “Se você quer realmente conhecer uma pessoa, dê poder a ela”. Pensando assim, há de se questionar se todos os que hoje protestam, seriam totalmente incapazes de se corromperem, caso lhes fosse apresentada uma oportunidade. Será que estamos com tanta moral assim? Olhemos à nossa volta. Diariamente, incontáveis desvios de conduta são praticados. Joga-se lixo no chão, furam-se filas, falsificam-se carteiras estudantis para pagamento de meia-entrada, só para citar alguns exemplos. Centenas de Malufes, Renanzes, e Dirceus em fase de incubação circulam impunes por aí.

Nos ditos países civilizados, costumamos invejar a educação da população. Aqui no Brasil, ridicularizamos quem gosta de andar na linha. Pejorativamente conhecidos como “certinhos” ou “quadrados”, as pessoas que seguem as regras do jogo são normalmente vistas como chatas, previsíveis e desinteressantes, incapazes de usufruir o que a vida tem de melhor.

Talvez, a receita para uma política mais ética, inclua menos ingredientes que imaginamos. Dois, pelo menos, não podem faltar. Precisamos de um espelho que nos faça olhar um pouco mais para as nossas próprias atitudes. Precisamos também de uma pitada de coerência, para que não corramos o risco de acabarmos fazendo exatamente aquilo que um dia condenamos (o Lula que o diga).

Quanto aos quarenta senadores que inocentaram Renan Calheiros... Sou capaz de apostar que, em outros tempos, estavam todos aqui, exatamente onde estamos hoje, protestando contra alguma politicagem indigesta.

E segue o baile!

03 setembro 2007

Teatrinho de advogados

Uma excelente opção de lazer tem sido o julgamento dos acusados de envolvimento com o esquema do mensalão. Atualmente em cartaz e estrelando os mais bem pagos advogados brasileiros, esta peça é garantia de divertimento e de boas gargalhadas para toda a família.

A casa de espetáculos do Supremo Tribunal Federal, em mais uma de suas grandiosas apresentações, abriu recentemente espaço para a peça humorística “Meu cliente é um santo”, estrelada pelos advogados de 40 acusados de corrupção, indiciados durante as apurações do esquema do mensalão. Como todo mundo sabe, durante meses a fio, denúncias se multiplicaram, evidências saltaram aos olhos às dezenas e provas inquestionáveis abarrotaram os armários dos relatores das CPI´s instauradas. Apesar disso, em um atentado ao senso do ridículo, os advogados desses senhores alegaram, um a um e com a maior cara de pau, a inocência de seus clientes, classificando as denúncias como "ineptas", "imprestáveis", "ridículas", "omissas" e "desprovidas de base fática". Como eles falam bonito!

Qual será a origem desses artistas? Se retrocedermos no tempo, encontraremos um deles, na ocasião, apenas um estudante de teatro, desistindo do curso de artes cênicas e ingressando na faculdade de Direito. Depois de algum tempo, gradua-se e passa na prova da OAB. O talentoso ator torna-se então um advogado. Aluga uma sala em um prédio comercial no centro da cidade, intitula-se “doutor” e manda pintar uma plaqueta com seu nome para ser pregada na porta do escritório. É o orgulho da família e a salvação dos rapazes elegantes de mão ligeira.

Os anos passam e nosso personagem passa a ser renomado. Causas milionárias surgem a todo o momento, e ele passa a ser contratado frequentemente para atuar na defesa de políticos corruptos (os rapazes elegantes de mão ligeira). Ao examinar um caso desses, em que o réu se diz inocente, geralmente lhe restam três alternativas: 1- Desistir imediatamente do caso, deixando o pepino para o Tom Cruise resolver, afinal missão impossível é com ele mesmo. 2- Não buscar a absolvição do réu, mas tentar amenizar ao máximo a pena que certamente será imposta, descolando algum atenuante. 3- Fazer papel de palhaço diante de 180 milhões de pessoas ao afirmar com todas as letras que o réu é inocente, que todos os flagrantes, os grampos telefônicos e as irregularidades são mero produto da nossa imaginação.

Curioso é ver como eles acreditam que, por mais esdrúxulas que sejam suas histórias, sempre irão conseguir convencer as pessoas, bastando apenas que o texto seja declamado em tom de profecia do apocalipse, em uma postura teatral e com enredo de novela mexicana. Isso chega a ser um insulto, uma afronta à inteligência alheia! Se eu fosse advogado, sentiria vergonha ao testemunhar alguém esculhambando e expondo ao ridículo minha classe profissional dessa forma. Será que os colegas da Ordem não se sentem mal com isso?

Alguns julgamentos, devido a carga excessiva de fábulas, acabam tomando a forma de um festival de anedotas. Além dos tribunais, estas também podem ocorrer em outros recintos, tais como pescarias ou mesas de bar. Em algumas cidades, inclusive, organizam-se verdadeiros campeonatos deste tipo, onde os competidores sobem em um palco, contam uma história cabeluda recheada de “fatos” insólitos e ficam aguardando ansiosamente a nota do juiz da competição. Notaram alguma semelhança?

Pela nossa lei, qualquer um tem direito a um advogado, até mesmo um serial killer. Mas qual o papel do advogado de um serial killer? Seria por acaso mostrar ao júri que o estripador está profundamente arrependido de seus crimes e por isso pedir sua absolvição? Afirmar que ele está tentando se reintegrar à sociedade, tendo inclusive sido contratado como recreador infantil em uma creche da vizinhança? Além de patético, forçar a barra desta maneira não parece ser nada ético. Muito mais sensato foi o advogado de brasileiros flagrados recentemente em situação ilegal nos Estados Unidos. Este advogado, ao invés de tentar provar que os clientes foram capturados por marcianos e tele-transportados involuntariamente da Bahia para Las Vegas, simplesmente tratou de tomar todas as ações cabíveis para que a burocracia inerente à deportação fosse superada da forma mais rápida e menos desgastante possível.

Por ouro lado, fico realmente impressionado com a veia artística dos nossos advogados. Penso até em contratar um dos bons. Acontece que ando comendo muita pizza ultimamente. Se eu virar um gordão, tratarei de processar aquela pizzaria vilipendiosa, inepta e imprestável, por produzir pizzas tão deliciosas.

24 junho 2007

No dos outros é refresco...

Pois bem, o Grêmio foi derrotado na final da Taça Libertadores da América pelo Boca Juniors da Argentina. Quais as conseqüências deste quase cataclismo? A festa que entraria madrugada adentro foi cancelada? Os fogos de artifícios foram encaixotados? Pobres daqueles que acharam que dormiriam sossegados naquela noite. Até várias horas após o apito final do árbitro, o que se viu e principalmente se ouviu, foi uma queima de fogos de dar inveja a muita festinha de reveillon por aí. Daria até gosto de ver, isso se o horário escolhido não tivesse sido a madrugada de uma quinta-feira.

Mas que raios! Ainda que mal pergunte, qual a razão para tamanha exaltação diante da vitória de um clube argentino? Por acaso estou em Buenos Aires? Por mais curioso que pareça, o palco de toda essa festa é nada menos que Porto Alegre e redondezas, a casa e o quintal do Grêmio Futebol Porto Alegrense. Na verdade, faltou contar um detalhe crucial: também é a casa do Esporte Clube Internacional , o arqui-rival do tricolor gaúcho.

É claro que, para os que respiram futebol, é bastante natural deparar-se com aquele sorriso largo de satisfação no rosto do seu amigo, um torcedor do outro time, frente a uma derrota sua. São coisas da tradicional rivalidade do esporte, muito semelhante na maioria dos estados brasileiros. Mesmo assim, ainda não havia testemunhado nada que fizesse um brasileiro chegar ao ponto de queimar um arsenal pirotécnico e cantar feliz a derrota do Brasil para a Argentina. Logicamente não estamos falando das seleções nacionais, mas os clubes, creio eu, não deixam de ser seus representantes. Grêmio e Internacional são os grandes personagens de uma epopéia onde, muitas vezes, a derrota do adversário pode causar satisfação maior que a gerada pela vitória do seu próprio time.

O Rio Grande do Sul, apesar de possuir além desses dois, outros times de expressão significativa no cenário do futebol nacional, concentra na famosa dupla a simpatia ou o fanatismo de 99% dos nativos desta ponta do país. É um ou outro, opções alternativas são raríssimas ou inexistentes. Obviamente, os times do interior do estado também contam com torcidas numerosas, mas esses torcedores invariavelmente elegem um dos dois times da capital como suplente. Ou então, não estranhem, a suplência é atribuída ao time da própria cidade, ficando o da capital com o assento reservado na primeira classe.

Veja, por exemplo, o que acontece quando alguém se candidata a uma vaga de emprego em uma empresa gaúcha. É bem provável que o interessado se depare com um ficha de inscrição encabeçada da seguinte forma:
Uma dica valiosa: procure descobrir, de antemão, para qual time torce o seu entrevistador.

13 maio 2007

Diplomaticamente falando

Assistindo ao noticiário que mostrava a recepção do presidente Lula ao Papa Bento XVI, fiquei com uma certa impressão que o companheiro não estava muito à vontade. Acabei associando a cena àquela situação, onde o namorado, muito à contra-gosto, se vê obrigado à fazer sala para a família da sogra. Além de fazer sala, nosso presidente ainda se vê obrigado a providenciar um discursinho politicamente correto, para que seja lido diante do Pontífice e das câmeras. Textinho chulé, fraquinho na verdade, onde ficou evidente que o Lula estava ali meramente cumprindo tabela.

E não tinha como ser diferente. Como sabemos, sempre se espera que o presidente da república dê seu pitaco em tudo, desde a crise financeira até o novo penteado do Evo Morales. Portanto, por via de regra, alguma coisa invariavelmente será dita, mesmo que o discurso acabe ficando com cara de “papo político só para constar”, mais conhecido nas casas do ramo como “recheio de lingüiça”. O repertório já é manjado: joga-se um charme, elogia-se bastante a autoridade, ressalta-se tudo de bom que ele tem feito pela humanidade, deixa-se de lado as divergências que certamente são ditas ou ao menos formuladas quando ele está a milhares de quilômetros de distância. Bajulações, promessas, tapinhas nas costas, sorrisos para os fotógrafos...

Ser diplomático, ser político, isso não deixa de ser necessário as vezes. Mas cabe o cuidado para que não se force a barra além do que a barra agüenta. Dos tempos da Grécia antiga, quando o filósofo grego Aristóteles produziu sua obra Política, até os dias de hoje, há de se convir que alguns conceitos acabaram mudando, ou melhor, se distorcendo e tomando novas vertentes. Valores e conceitos antigos sofreram verdadeiras mutações, que acabaram dando origem à politicagem, o filho feio da Política de Aristóteles

Esse papo de política e Grécia antiga está meio nebuloso? Então veja um exemplo: Em uma empresa fictícia, um gerente qualquer depara-se com uma tragédia: na sua sala, um vaso de samambaia muito mal posicionado está obstruindo a vista da janela panorâmica em frente à mesa. E não é só isso! A pobre plantinha está posicionada diretamente abaixo da saída do ar condicionado. Isso não pode ser bom para ela, vai que a coitadinha resseca ou adoece, com todos aqueles ácaros... Imediatamente, ele telefona para o chefe da manutenção e relata o ocorrido. O chefe da manutenção, que aliás, virou chefe depois de aprender as artimanhas da politicagem, solicita que dois de seus colaboradores (eufemismo para peão) parem imediatamente o que estejam fazendo para irem movimentar o vasinho de samambaia do gerentão. O encarregado, com sua equipe, suado e atordoado lá no chão de fábrica a 45ºC, tentando bravamente solucionar a pane de uma máquina no meio de outras tantas zunindo nos ouvidos, ao tomar conhecimento da natureza da nobre missão, prontamente responde à mensagem: “Mande aquele corno barrigudo levantar a bunda da cadeira e ajeitar ele mesmo a porcaria da planta. Não posso me dar ao luxo de interromper a manutenção deste equipamento, algo realmente importante para atender aos caprichos daquele velho mimado”. Diante de tamanha veemência, o chefe da manutenção repassa ao gerente o recado do encarregado: Caro senhor, no momento nossa equipe está totalmente empenhada no atendimento à uma emergência operacional na linha de produção. Tão logo possível, estaremos tomando todas as ações necessárias para a solução do seu problema.

Da mesma forma, agem aqueles que estão à frente de grandes empreendimentos, já que, normalmente, são os procurados para darem explicações por conta de alguma cagada operacional, mesmo que não tenham a menor idéia do porquê dela ter ocorrido. Nessas horas, nada melhor do que se limitar a dizer o que estão querendo ouvir. E o que se quer ouvir? Nada mais que as explicações de sempre, os curingas da arte da embromação, ou como são mais conhecidos em nosso meio, o discurso político.

Não vamos medir esforços... Não vamos tolerar...Vamos tomar todas as medidas... Vamos apurar as causas.... Vamos apurar responsabilidades... Vamos... Vamos... Vamos dar o fora daqui!

07 dezembro 2006

“Tudo que eles gostam é ilegal, imoral ou engorda”



É notável como uma grande parte da gurizada que por aí circula faz questão de seguir a famosa frase ao pé da letra. Uma questão que me faz pensar muito é: por que raios acaba sendo bonito fazer coisas que... convenhamos, não o são? Lembro que quando eu cursava o “ginásio” (naquele tempo se chamava assim), existia entre os alunos, uma forte segregação entre os chatos e previsíveis CDF´s , ocupantes das primeiras filas de cadeiras nas salas de aula e da bem menos ortodoxa galera do fundo, composta por garotões que atiravam bolas de papel na cabeça dos CDF´s, que não faziam suas lições de casa e que, eventualmente, acabavam passando de ano, mas às custas de vários fios de cabelo branco na cabeça dos pobres pais.

Aí está: uma das primeiras manifestações de inversão de valores, neste estágio ainda inofensivo, mas que pode acabar tomando proporções bem mais desastrosas como veremos adiante.

O tempo passa e os garotões da turma do fundo crescem. Alguns acabam criando cérebro e se dão conta de que é possível ao mesmo tempo “sentar nas últimas cadeiras” e tirar boas notas. Outros pobres infelizes adquirem a síndrome do miolo mole, infelizmente ainda sem cura, cujos sintomas principais vão do ócio ao exibicionismo extremo.

A sociedade brasileira de medicina divulgou recentemente uma cartilha educativa, contendo informações sobre este terrível mal que assola nossos jovens. Eis algumas das formas com que o mal se manifesta:

1- O Massaranduba: Freqüentador assíduo de academias de artes marciais. Seu único intuito como desportista é se dar bem nas brigas. Freqüenta boates, bares e demais casas noturnas para mostrar o quão macho ele é. Sua macheza é proporcional aos centímetros de seu bíceps e ao número de fracotes que conseguiu esmurrar na última briga que provocou. Principal agente causador: Menininhas de decote generoso que se derretem perante cenas que deveriam, na verdade, causar náuseas.

2- O Playboy pobre: Desfila todo sábado à noite naquela avenida cheia de barzinhos lotados, a 20 km/h com seu possante chevette 1985 rebaixado. Dentro do carro há mais quatro enfermos que vão ajudar a rachar a gasolina e que também vão ajudar o motorista a distribuir pomposos elogios às transeuntes do sexo feminino. O itinerário é quase sempre o mesmo: após ficarem tontos de tanto darem voltas no quarteirão, estacionam o possante em frente a uma badalada casa noturna, (preferencialmente com uma bela fila na entrada) e ali ficam, bicando latas de cerveja até que a fila termine ou a cerveja esquente, o que vier primeiro.

3- O Playboy abonado – Esta variação, também conhecida como “filhinho de papai”, apresenta várias semelhanças com o caso anterior. Garotão arrumadinho e com cabelo a la pica-pau, obtido à base de generosas porções de gel bozzano. No aniversário de 18 anos ganhou de presente do pai um Golf Gti Extreme Turbo Extra Plus, o qual sem demora foi transformado em um trio elétrico ambulante. Não possui coordenação motora suficiente para manipular as duas mãos simultaneamente, daí o motivo para elas passarem a maior parte do tempo ocupadas com cigarros e copos de cerveja. Exibe constantemente suas incríveis habilidades automobilísticas, onde com uma perícia invejável esgoela o motor, frita os pneus e dá “cavalinhos de pau” nas vias públicas. Portadores de uma destreza ainda maior têm demonstrado que conseguem inclusive fazer tudo isso com doses bastante significativas de álcool nas veias. Principal agente causador: Menininhas de roupas caras que acham lindo tudo isso.

Nota-se claramente que este ramo da medicina está em plena expansão, e muito está sendo investido no estudo desses males, portanto há de se considerar novas publicações dentro do assunto.
Atualização: aos finais de semana
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