24 maio 2008

Os acadêmicos da terça-feira.

A noite de terça feira custa a passar. Sentados nas classes, cerca de trinta futuros engenheiros apreciam a exposição de um tema indigesto. À frente de um quadro negro tomado por cálculos, deduções, matrizes, integrais e equações diferenciais, um professor septuagenário despeja o conteúdo da sua disciplina para dezenas de expectadores entediados. E lá estou eu, fazendo parte do cenário.

Após duas horas de aula, passo a travar uma batalha ferrenha contra minhas pálpebras que cismam em fechar-se. Acompanho com certo sacrifício aquela didática toda particular, enquanto o tom de voz cadenciado e constante, juntamente com a imagem do retroprojetor, fazem eu me sentir como se estivesse dirigindo um carro em linha reta depois de ter almoçado um prato de feijoada com bacon.

Sob os olhares consternados dos pupilos, o velho mestre, após desenvolver uma equação quilométrica e cabeluda, vira-se e lança a pergunta: “Ficou perfeitamente claro? Todos entenderam?” Olhando para a platéia, aguarda os questionamentos, mas nenhum braço se levanta. Talvez ainda não tenha ocorrido a ele, mas para que algum questionamento possa surgir, naturalmente, é necessário um mínimo de compreensão do tema, pelo menos o suficiente para permitir que alguém seja capaz de formular uma pergunta.

Devido à baixa interatividade da aula, o professor inicia então uma rodada de perguntas dirigidas, onde pelo menos uns cinco felizardos têm o privilégio de expor sua ignorância ao resto da turma. Na tentativa de escapar das encaradas do mestre e da possibilidade de ser eleito para responder alguma pergunta, todos afundam os olhos nos cadernos ou desviam os olhares para o quadro negro, onde aquele monte de rabiscos teima em não fazer sentido algum.

“Joãzinho, você entendeu o que eu acabei de demonstrar?” Dispara o professor, ao que o Joãozinho resolve ser sincero, dizendo que não entendeu bulhufas do que ele vinha explicando. Verdade dita, logo surge o rebote: “Ok, e o que exatamente você não entendeu?” Pergunta o solícito professor para o ingênuo e já arrependido Joãzinho. Novamente acuado, não lhe agradando a idéia de sugerir ao homem que retome o conteúdo desde o início do capítulo 1, ele ensaia uma cara de intelectual enquanto tenta formular a resposta mais genérica de que se tem notícia. Os colegas entreolham-se e engolem o riso diante de mais uma tentativa de aplicação da velha e conhecida técnica de fuga pela tangente.

A aula segue e ninguém mais é posto em situação constrangedora. Desta forma, sem mais nenhum tipo de entretenimento, acabo sendo vencido pelo sono. Mesmo sentado no fundo, sou avistado pelo velho dos olhos de águia, que levanta o braço e pede silêncio à turma: “Não vamos atrapalhar o sono do rapaz ali no fundo”.

Engraçadinho ele. O cara sempre escolhe os piores momentos para bancar o cool.

3 comentários:

Margarida disse...

Estudar à noite realmente é "barra". A Laura também dormia quando fazia cursinho pré-vestibular à noite, depois de acordar todos os dias às 5 da manhã para ir trabalhar (no estágio da escola técnica, com cujo salário ela mesma pagava o cursinho). Na volta do trabalho, descia do ônibus direto na porta da Escola, e depois só conseguia desabar na cama. Mas mesmo assim passou na Unicamp, nem precisou do pro-uni.

Frederico disse...

meu!!!
esse é o de Vibrações né?
esqueci o nome dele, aquele que tem um livro? correto?
ahahahahahahaha

Robson Dombrosky disse...

É esse mesmo! Pois é, você conhece a figura, já foi inclusive tema de várias conversas nossas.
rsrsrsrsrs

Atualização: aos finais de semana
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