12 setembro 2008

Eu sou maior que você!

Ao chegar em casa e ligar a televisão para me distrair enquanto disfarçava a bagunça no quarto, vi que passava um filme já pela metade. Era mais um daqueles pastelões melodramático norte-americanos, um primor na arte da embromação. Acabei me prestando a sentar e acompanhar o filmeco, que falava do vôo 93 da American Airlines, um daquele que caiu durante os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001. Esse vôo, para quem não se lembra, foi aquele último a ir ao chão, onde os passageiros, já cientes da missão suicida dos terroristas à bordo, tentaram reagir e tomar o controle da aeronave. Para ser sincero, eu estava mesmo era um tanto curioso para saber como seria a cena dos mocinhos morrendo no final, uma grande inovação, em se tratando de filme americano.

O resultado, no entanto, já era previsível: pobres famílias desamparadas, várias criancinhas de olhos azuis indagando porque o papai não ia mais voltar para casa. Era a deixa para as mães explicarem o quão cruel o mundo é, que lá do outro lado existem pessoas más que falam uma língua esquisita e matam pessoas inocentes. Tudo isso em meio a musiquinhas de efeito, lágrimas e o mesmo “God save America” de sempre. Enquanto isso, na terra de Alah, fora do alcance dos telespectadores e sem musiquinhas de efeito, um garotinho de cabelos negros e olhar penetrante pergunta por que é que uma bomba teve que cair em cima da sua casa, matando a sua mãe, enquanto seu pai era executado “meio que sem querer” pelas forças de ocupação que há anos rondam o seu país.

Enxergamos um lado, não olhamos para o outro - a mente humana é muito influenciável por imagens e emoções. Se só temos acesso a um lado da moeda, existe a tendência de encararmos essa informação como verdade absoluta. Nem sempre é fácil conduzir uma linha de pensamento sem ficarmos presos dentro dessas redomas que abafam nossa capacidade de raciocínio lógico.

Lembro que quando eu era moleque, gostava mais desses filmes. Na época, eu não percebia os sintomas sutis (ou nem tanto) da alienação e do excesso de um patriotismo (ou regionalismo) cego de quem cisma em convencer a todos de que somente a sua cultura presta, que só os representantes do seu povo são realmente espertos, coerentes e civilizados. No sul do Brasil, por exemplo, ainda existem resquícios daqueles ideais separatistas que, do alto da sua mesquinhez, teimam em ignorar a imensa riqueza formada pela diversidade cultural e pela abundância de recursos naturais, bens de uma grandeza tal que somente poderiam estar reunidos dentro de uma invejável vastidão territorial, exatamente como a do Brasil.

Um povo que tanto almeja a prosperidade precisa tomar cuidado com a disseminação de ideais tortuosos. Se um sotaque é diferente do nosso, isso não deveria ser motivo de chacota. Lembremo-nos que o falar deles é esquisito em relação ao nosso, tanto quanto o nosso é esquisito em relação ao deles. Se por um lado receamos ou até mesmo tememos os efeitos da globalização, à medida que ela extingue tradições e culturas, achatando-as todas a um mesmo plano, por outro lado participamos com nosso quinhão, ao tratarmos com escárnio qualquer tipo de cultura diferente daquela com a qual estamos habituados.

3 comentários:

lequita disse...

viva a multiculturalidade!

Laura disse...

Pois é. Nos escandalizamos com toda a crueldade que existe num gesto terrorista, mas nem nos perguntamos que coisa tão mais cruel (realmente cruel, fria e calculistamente cruel) pode ter levado um ser humano a tal gesto.

Léo Fernandes disse...

Sem esquecer que não necessariamente são os coitadinhos que têm razão.

O lado rico e poderoso às vezes também é o lado que está certo (ou menos errado).

O coitadinho de hoje pode ter sido o monstro de ontem.

No fim das contas, são os inocentes dos dois lados que levam as sobras.

Atualização: aos finais de semana
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