12 janeiro 2008

Monólogos no trem

É sexta feira, cerca de 17h30min. Estou no trem, retornando para casa após o trabalho. Vagão cheio, temperatura na casa dos 35 graus. Estou de pé, com uma mão me apoio e com a outra equilibro um encorpado volume de um guia de viagens da América do Sul. Entretido pelas suas páginas e com a cabeça a uns 5000 km dali, mal percebo o que se passa ao meu redor.

Bem ao meu lado, uma senhora de uns cinqüenta ou sessenta anos começa a me observar atenciosamente. Acabo percebendo e, com um olho no livro e o outro nela, chego à conclusão que o livro é mais negócio. Retorno às suas páginas.

Lá pelas tantas, a velha senhora não se contém e resolve puxar conversa:

- O que é isso que você está lendo? É a bíblia?
- Hein?
- Isso aí... é uma bíblia?

Seria um engano compreensível, julgando-se pelo volume das oitocentas e tantas páginas do meu livro. Poderia até existir certa semelhança, se pelo menos a capa não exibisse uma foto em close de uma indiazinha Inca, com os dizeres “América do Sul - guia do viajante independente” em letras garrafais.

- Não, não é uma bíblia, respondo em tom sereno.
- Ahh. É um livro de estórias então? É um romance?

Percebo que ela não desistiria assim tão facilmente e muito menos se daria por satisfeita com um outro “não”. Resolvo então incrementar um pouco minha fala:

- Não, também não é um romance. É um guia de viagens.
- Ahhhhh... um guia de viagens, hummmmm...

Inocentemente, passo a acreditar que essa minha explicação detalhada e minuciosa a deixaria satisfeita. Porém, como podem perceber, acabo não sendo feliz:

- Você vai viajar então?
- ...
- É, pois é.. Vou sim.

Concluo que ela está mesmo a fim de papo e, por mais que eu tente fazer cara de concentrado em minha leitura, ela não faz cerimônia em me interromper a cada quinze segundos com suas colocações pertinentes. Acabo não tendo outra escolha senão fechar o livro, deixá-lo debaixo do braço e dar um pouquinho de atenção para a velha. Pacientemente, vou tentando matar sua curiosidade quase imortal, ouvindo suas histórias e sendo gentil na medida do possível. É o mínimo que eu posso fazer e, ao mesmo tempo, é o máximo a que eu me disponho a fazer.

Lá pelas tantas, como se falar sobre sua vida já não rendesse assunto suficiente, eis que a atenciosa senhora encontra uma brecha e desata a tagarelar sobre seus parentes, amigos, conhecidos, a turma do bingo, as senhoras do clube do tricô e, é claro, do Nestor, seu bondoso (e falecido) marido. Recordando agora, não consigo lembrar ao certo como ela conseguiu encaixar tantos assuntos, discorrendo sobre metade dos componentes de sua árvore genealógica. Bem, só pode ter sido quando deixei escapar que eu estava lendo aquele guia por causa de uma viagem de moto que faria. Isso foi mais que suficiente para ela me contar sobre seu sobrinho, o Marquinho, menino teimoso e difícil que não ouviu suas advertências sobre pilotar alcoolizado uma CG 125. E olha que não foi só ela que alertou o Marquinho. O peralta não ouviu nem ela, nem a Cleusa e muito menos a Clotilde. Continuou aprontando por aí até se estatelar contra uma árvore e perder uma perna. Pobre plantinha...

A viagem segue. Raios, porque tenho que morar tão longe? Meia hora depois, muito menos paciente e muito mais informado do que antes, anuncio, com uma profunda dor no coração, que eu desceria na próxima estação. E eis que ela prontamente puxa da sua bolsa um cupom fiscal de supermercado e em seu verso desata a escrever.

- Pega, ela diz me estendendo a tira de papel.
- Aí está meu endereço. Quando retornar de sua viagem me mande as fotos para eu ver os lugares por onde você passou.
- Sim, claro
. Respondo com um sorriso amarelo na cara e coloco o papel no bolso das calças. As portas do trem se abrem e eu ganho a plataforma da estação. Com o trem novamente em movimento olho para trás, ainda a tempo de vê-la acenando. Retribuo a gentileza e vou embora.

Quanto ao papel com o endereço, este ia sobrevivendo, até o dia em que esqueci de tirá-lo do bolso para lavar as calças. Menos mal. Ao menos assim não precisei ficar com peso na consciência caso decidisse ignorar categoricamente o pedido da minha “colega de viagem”. Afinal, era o que eu certamente acabaria fazendo.

2 comentários:

Anônimo disse...

e ai robson... sabe esse tema é interessante, pois todos passamos por situacoes assim, na familia ou por ai.. no trem. e ai o que fazer.. me pergunto sempre se um dia nos tambem seremos assim, carentes de atencao. acho que sim.

o importante eh darmos atencao sem mimar .. sem deixar tomar conta da situacao. dificil neh.

formolo disse...

e ai robson... sabe esse tema é interessante, pois todos passamos por situacoes assim, na familia ou por ai.. no trem. e ai o que fazer.. me pergunto sempre se um dia nos tambem seremos assim, carentes de atencao. acho que sim.

o importante eh darmos atencao sem mimar .. sem deixar tomar conta da situacao. dificil neh.

Atualização: aos finais de semana
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