25 agosto 2007

Novelas, um mal desnecessário.

Enredos e tramas previsíveis? Muito mais previsíveis são os danos causados por essa praga, que há décadas vem acorrentando espectadores aos pés das televisões, ditando moda e distorcendo valores.

Vem aí uma nova novela das oito. A equipe do Cenas-do-Cotidiano, em um incrível furo de reportagem, conseguiu uma entrevista exclusiva com o autor, que por motivos ainda desconhecidos, entregou de bandeja vários detalhes exclusivos dessa nova trama, que certamente vai prender você e seus familiares na poltrona por meses a fio...

Na base do enredo, haverá uma família rica, poderosa e influente, já que isso não pode faltar. Ocasionalmente, serão também retratadas pessoas “comuns”, embora os diretores conheçam muito bem a preferência dos telespectadores por cenários pomposos, ao invés de oficinas mecânicas e seus funcionários sujos de tinta guache. O patriarca da família rica será um poderoso executivo de uma mega empresa qualquer, cheia de dólares nas ilhas Cayman. O ramo de atuação da empresa não ficará claro para o público, mas seja lá qual for, ela será comandada com braço de ferro pelo poderoso figurão, sempre impecavelmente trajado. Todas as transações retratadas serão realizadas em dólar, já que nesses ambientes não haverá espaço para a moeda tupiniquim.

O figurão logicamente terá uma filha muito bonita, que invariavelmente vai se apaixonar por algum rapaz “humilde”, muito fofo, com cara de teletubie. E como isso vai acontecer? Bom partido evidente, a mocinha já estará prometida em casamento ao filho de outro aristocrata qualquer, cuja identidade não virá muito ao caso. O sujeito, típico mauricinho boa pinta, será malvado, muito malvado. Apesar de já defecar dinheiro, vislumbrará o casamento como um meio de pôr as mãos na bufunfa do velho sogro. A maneira indiferente e insensível do filhote de burguês tratar a mocinha, fará com que ela, já cabisbaixa, passe a prestar atenção ao menino bonzinho com cara de teletubie. O moço vai passar 358 capítulos ciscando o território, sendo vítima de inúmeras tramóias arquitetadas pela mente malévola do namorado oficial, até que, no antepenúltimo capítulo, vai acabar tirando uma casquinha da beldade, chutando de vez bunda do ex-futuro esposo para escanteio.

Em outro canto da vizinhança, um casal vai quebrar o pau regularmente em intervalos pré-definidos pela preferência nacional. Lá pelo vigésimo quinto capítulo irão se divorciar. A mãe vai acabar tendo um caso com o primo da cunhada, o mesmo que acompanhava seu marido nas inúmeras baladas que ele freqüentava às escondidas. As escapadas do marido, em algum ponto obscuro de um passado longínquo, geraram um filho bastardo, que cresceu acreditando ser filhote de chocadeira, resultado de um acidente de laboratório durante as pesquisas do Projeto Genoma. O filho bastardo descobre que não é apenas um filho da mãe, mas que também tem um pai afinal de contas. Vai descobrir também que sua namoradinha de infância, com quem dava altos amassos no pátio da escola é, na verdade, sua irmã.

Nesse ponto, a trama dará uma reviravolta e se encaminhará para seu desfecho. A menina rica se casará com o cinderelo, em uma cerimônia coletiva, junto com mais dois terços do elenco, todos sob regime de separação de bens. O burguesinho traído passará a lavar pratos em um restaurante chinês na Baixada Fluminense, após a fortuna do seu pai evaporar com uma súbita queda da bolsa de Tóquio. O ex-filho de chocadeira, diante do choque causado pela revelação de seu passado negro, muda-se para as ilhas Galápagos, onde funda uma nova seita religiosa, passando a pregar a libertação dos dragões de komodo e das tartarugas gigantes.

E assim terminará mais uma linda história de amor.

O ministério da saúde adverte:

1- Assistir novelas causa sérios danos à integridade mental. Aprecie com moderação, ou de preferência, abstenha-se.

2- Leve a sério o aviso acima, não se trata de ironia ou piada.

3- Não caia na papagaiada de que novela retrata a realidade. As pessoas interpretam o que assistem como sendo realidade, e passam a considerá-la como tal, e não o contrário.

4- Traição não se justifica. “As cenas são formadas de modo que o telespectador seja levado a até desejar que o adultério se consuma, por causa da "maldade" do cônjuge traído” (Felipe Aquino).

5- Moleques inconsequentes criados por pais bananas não chegam a lugar algum. Em algum ponto de suas vidas serão removidos do tacho pela escumadeira que recolhe a escória.

6-Famílias desestruturadas e desmoralizadas geram jovens acéfalos que irão surrar mendigos e empregadas domésticas em pontos de ônibus. Depois ninguém vai entender como universitários de boa família foram capazes de tamanha barbaridade.

E aos responsáveis pela disseminação desse lixo: Estejam cientes do mal que estão promovendo.

6 comentários:

Léo Fernandes disse...

O enredo básico das novelas repete o dos folhetins que nossas avós devoravam. Uma tal de M.Delly escreveu "trocentos" livros com o mesmo tema: moça pobre e virtuosa ama rapaz rico e bom, mas ingênuo a ponto de se deixar enganar pelas armações da moça rica e má. E a moça pobre sofre horrores até cair a ficha do rapaz rico, os dois se casarem e a moça má ter o que merecia.
Barbara Cartland é seu equivalente moderno.

As novelas dão o que o povo quer (e, infelizmente, é isto o que o povo quer, ou não as assistiria), mas poderiam aproveitar a influência que têm para divulgar um pouco de cultura e ética (o que já é feito, mas só em poucos casos), em vez de apenas retratar nossos maus costumes como se fossem uma coisa normal.

lais disse...

hahahahahaahaha


sem comentários!

Acho que esse foi um dos melhores (se é que dá pra escolher o melhor)textos que eu li desse blog!
Muito engraçado! "o cara fofo com cara de teletubie" hahaha

E extremamente realista também. As novelas são sempre a mesma porcaria, "encheção de linguiça" como alguns dizem..mas quando acaba o Jornal Nacional todo mundo se reúne na sala pra ver a tal porcaria da novela...

Haha

beijoo!

Lima disse...

Muito bom esse seu texto.
valeu

Lima disse...

http://midiapodre.blogspot.com/

Rosa disse...

Não concordo com o Léo quando ele diz que
"As novelas dão o que o povo quer (e, infelizmente, é isto o que o povo quer, ou não as assistiria)" .
Acho que assistem por falta de opção. Mas certamente prefeririam um enredo mais leve, adequado para toda a família e, se possível, mais light, para relaxar depois do trabalho.

Mariana Fiusa disse...

Como sempre adorei.
Mas não concordo que o mocinho Cinderelo tenha cara de Teletubie, se for a assim a beldade da mocinha rica tb tem!!! xP
Novelas... a gente sabe de todo o mal que causam com sua inutilidades, mas a gente continua vendo...fazer o que... huhuhauha
bjao primo
x)

Atualização: aos finais de semana
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