Mais uma vez o sonho acabou. Cá está novamente o inverno e seu fiel companheiro, o frio. E não estamos falando de friozinho qualquer, mas sim deste clima maligno do Rio Grande do Sul, onde normalmente o verão é um forno e o inverno é um freezer. Tamanha disparidade acaba causando reações diversas nas pessoas, todos têm sua opinião formada sobre o assunto clima, não há muito espaço para indiferença. E assim como há louco para tudo, há também os que detestam o verão tanto quanto eu detesto o inverno. Com bastante esforço, estou aprendendo a tolerá-lo, o que já é um progresso e tanto, considerando os flagelos descritos adiante.Vamos ao que “interessa”, o inverno da região sul. Sabemos que no Brasil, uma parte significativa e feliz da população ignora o conceito de frio, a não ser quando chupa um picolé ou abre a geladeira, o que não é o caso desta ponta do país, onde se bate queixo de maio a agosto.
Afinal, como se justifica uma simpatia por esse clima do capeta? Eis um dos argumentos que mais ouço: “Ah, adoro o inverno, é tão gostoso, sentar debaixo das cobertas, bem quentinho na frente da lareira, assistindo TV o dia inteiro...” Claro, desse jeito fica mesmo fácil gostar do inverno. Pena que não estamos na terra do nunca, ou na ilha da fantasia. Aqui, no mundo real, não estamos em condições de considerar lareiras, cobertores ou esse ócio extremo que permite ao vivente ficar o dia inteiro tomando chocolate quente debaixo das cobertas e assistindo Ana Maria Braga. Vamos aos fatos, vamos à vida como ela é.
Acordar cedo, já começa por aí. O que já era uma tarefa desagradável torna-se um martírio no inverno. Deixar o aconchego das cobertas para caminhar tremendo feito vara verde até o banheiro é mais complicado do que pode parecer. Uma vez lá, lava-se a cara com água gelada, e também o cabelo, para que este assuma uma forma ao menos aceitável. Na rua, há o trajeto de caminhada, onde um termômetro marcando 5 graus nunca é uma visão muito bonita. Sinceramente, não entendo como alguém em sã consciência pode gostar de andar todo entorpecido, semi-congelado. Deve ser masoquismo.
Como amenizar o problema? Com roupas, é claro, muitas roupas. Após devidamente adaptado para uma caminhada ao ar livre, acabo sentindo-me como uma múmia empacotada para o frete. Já na hora do banho, mais precisamente no momento de fechar a água, o frio desleal ataca com requintes de crueldade o corpo indefeso, que diante do sofrimento iminente, nada mais pode pedir além de alguns segundos de reflexão, essenciais para que se crie a coragem necessária à execução de tão árdua tarefa. E andar de moto? Outro ritual, ainda mais longo e minucioso, tanto na colocação como na retirada dos trajes, nada prático, principalmente durante as famigeradas visitas ao Sr. Water Closet, o WC.
Vamos dar as boas vindas ao inverno, estação dos trens e ônibus lacrados e seus passageiros bichados, distribuindo solidariamente seus vírus. Das roupas que não secam no varal, das mãos entorpecidas ao lavarem a louça. Por outro lado, estação de moças elegantes e charmosas em seus belos casacos, que no verão, serão substituídos por belas saias.
Que saudades do verão...

