16 março 2007

A corrupção e seu odor característico

Sabem qual a diferença entre um político corrupto e um vizinho mal educado que atira lixo por cima do seu muro? Os trajes, nada mais. Temos aqui um exemplo que pode ilustrar essa linha de raciocínio. Nossa história tem dois personagens. Ambos são dotados de uma reluzente cara de pau, ambos procuram soluções para benefício próprio independente de prejuízos a terceiros e, o mais triste, ambos são brasileiríssimos.

Sr. Silva, distinto cidadão de classe, assistiu o noticiário e ficou possesso quando viu mais um deputado pego com a boca na botija:“Essa cambada de políticos, são todos uns salafrários mesmo, a escória da sociedade! É por isso que o Brasil não vai pra frente!” Esbravejava Sr. Silva enquanto prendia Mamute – seu adorado cãozinho são bernardo de 50 kg na coleira para seu passeio diário pelo bairro. Lá pelas tantas, Mamute lança para o dono um olhar melancólico, informando que há algo de podre no ar. Prontamente, Sr. Silva encaminha Mamute para o gramado mais próximo, neste caso o jardim de uma bela casa, onde o bichano gentilmente despeja uma contribuição de peso para a fertilização do gramado. Sr. Silva, meio sem jeito, olha ao seu redor e dá uma coçadinha na nuca enquanto seu fiel companheiro aplica os retoques finais à sua obra de arte. Cumprida a missão, os dois seguem seu caminho, deixando para trás uma lembrancinha ao jardineiro da casa, que assim que passar por cima da obra do Mamute com a máquina de cortar grama, receberá nas canelas uma generosa demão de reboco malcheiroso.

Infelizmente, a imprensa não estava lá para documentar a displicência do Sr. Silva, por isso o ato passou despercebido. Já o político ladrão, aquele que ele xingara minutos antes, não teve tanta sorte, tendo sido flagrado durante o ato.

É uma lástima, mas infelizmente parece que o brasileiro tem os líderes que merece. A própria sociedade que repudia a “senvergonhice” generalizada dos homens e mulheres do poder funciona como incubadora de maçãs podres. É como se fosse uma espécie de estágio de adaptação: o futuro político, antes de se tornar homem público, não passa de um cidadão comum com espírito de porco. Quando eventualmente vence uma eleição ou é nomeado por alguém que lhe deve favores, já está apto à alçar vôos bem mais altos.

Será que o Sr. Silva, nosso personagem fictício realmente tem moral para maldizer os homens públicos de comportamento duvidoso? Será que atos como jogar lixo na rua ou julgar-se “o esperto”, tentando sempre tirar vantagem de tudo, também não configuram falta de decoro, termo tão citado no noticiário político? Vejo uma ligação bastante estreita entre os dois: o cocô abandonado hoje pode virar o dinheiro lavado amanhã.

Exagero? Tenho minhas dúvidas.

2 comentários:

rita silva disse...

É sofrível como alguns políticos simplesmente "renascem das cinzas", parecendo uns verdadeiros "Highlanders" e voltam prá cena, e às vezes prá mudar um pouco, pintam o cabelo, trocam o carro importado, mas são os mesmos sanguessugas neoliberais que a grande maioria dos SRs Silvas elegeram, esses últimos criminosos em grau menor, mas criminosos, por suas más condutas, uma delas contada pelo dono deste blog, Parabéns!

Léo Fernandes disse...

Uma coisa que me incomoda no brasileiro é a mania do "deixa ele, que que tem, você reclama de tudo".
Quando Sérgio Buarque de Holanda fala do "brasileiro cordial", ele não está elogiando, está falando dos idiotas que acham que as relações pessoais estão acima das leis, que praticam uma tolerância equivocada.
E ai de você se reclamar do idiota que joga lixo na rua em vez de esticar o braço e jogar na lixeira. Que usa celular no cinema. Que fuma no elevador. Que avança o sinal.
É você o errado, o intolerante.
"Deixa ele, que que tem, que mania, você é muito estressado!"

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