07 julho 2007

Hoje, a palmada? Ou amanhã, uma coronhada?

Me deu até peninha, quando vi os pobres rapazinhos tentando inutilmente esconder a cara diante das câmeras, quando foram detidos na delegacia. Coitadinhas dessas crianças, tão repreendidas, só porque resolveram brincar de “surra na doméstica”. É uma brincadeira muito comum e tradicional, especialmente na zona sul do Rio e demais redutos de filhinhos de papai e outros marginaizinhos de vida fácil.

O mesmo tipo de lazer eu vi na televisão, em uma cena de arquivo da emissora, onde um piá de 14 anos, com uma espingarda de pressão, deus uns tiros por aí, mirando e acertando pessoa na rua. A mãe do moleque sacana, com jeito de perua acomodada, apresentou a seguinte declaração: “Se formos analisar bem, veremos que ele não estava atirando. Estava, na verdade, apenas brincando”. Brilhante minha senhora! Sabe que eu nunca tinha parado para analisar a questão sob este ponto de vista? Gostei tanto do argumento que vou, até o penúltimo parágrafo, seguir a mesma linha de raciocínio desta madame, verdadeiro ícone da inteligência suburbana.

Para começar, traficantes cariocas são os jovens mais brincalhões dos quais tenho notícia, esses sim sabem se divertir. Diariamente brincam de guerrinha com seus amiguinhos, os policiais do BOPE que vão até suas casas a bordo do caveirão, aquele carro blindado, bem grandão, todo preto, super legal, que ganharam de natal. É o brinquedo com o qual todo menino pobre do morro sonha, é por isso que ficam tão radiantes e soltam aquelas salvas de tiros de AK-47 em saudação aos colegas que chegam para brincar com eles. Ali ficam durante a tarde toda, só parando quando suas mães os chamam na hora da janta.

Educar, a solução é educar nossas crianças, certo? Mas quem os adultos pensam que são para dizer “não” a uma criança? Que barbaridade, todo mundo sabe que os pais não podem fazer isso, sob o risco de traumatizarem os pobrezinhos. Se seu filho de três anos, por exemplo, atear fogo na sala de estar, não brigue com ele. Sentem-se e tenham uma conversa franca, de homem para homem. Evidentemente, a criatura já tem maturidade suficiente para apresentar argumentos muito bem embasados que podem facilmente justificar seus atos e convencê-lo de que ele estava apenas exercendo seus direitos de pirralho arteiro e mimado, não havendo, pois, motivos para represálias. Você pensou até mesmo em aplicar palmadas corretivas em sua região glútea? Seu animal, grosso e insensível! Não vê que estará criando um monstro dentro de casa? Um delinqüente juvenil crescendo revoltado com tudo e com todos, que vai acabar saindo por aí, também dando palmadas em pessoas nos pontos de ônibus, como uma maneira de extravasar sua fúria interior, reprimida durante anos de educação bárbara e medieval?

Portanto, os policiais malvados que algemaram os meninos na delegacia, deveriam, quem sabe, ter levado as informações acima em conta. Não se faz isso com rapazinhos de família boa, que fazem faculdade e tudo, que só estavam brincando e que nunca imaginaram que uns meros sopapos na cara daquela dona, que estava ali parada esperando seu ônibus, iria deixar as pessoas tão zangadas. Que gente mais escandalosa!

É através de uma correta orientação que uma criança aprende a ser criança, e por conseqüência, transforma-se em um cidadão de bem. Por outro lado, são os filhos de pais acomodados, ausentes e descomprometidos com sua educação que, cada vez mais, povoam festas e boates. Crescem tornando-se apreciadores das “brincadeiras” praticadas semana passada no Rio. As vítimas, por sua vez, aprendem a esperarem sentadas até que os ditos meninos de boa família recebam e cumpram o devido castigo, sem que um pai advogado ou um tio juiz apareçam como vermes aproveitadores, nos furos nas nossas leis corroídas.

3 comentários:

Léo Fernandes disse...

Crianças procuram por limites. Estão sempre desafiando os pais, tentando ver até onde podem ir. Se os pais não os derem, elas vão continuar procurando - até serem presas.

E não adianta o adulto mandar a criança fazer coisas e ele próprio não fazer. Mandar comer legumes porque é bom para saúde - mas não comer. Ensinar o respeito às leis - e avançar o sinal. Reclamar dos poluidores - e jogar lixo na rua.

Claro que eles que se justificarão dizendo que em Brasília fazem coisas muito piores e ninguém é punido, mas o governo somos nós. Quem está lá foi eleito por nós e saiu do nosso meio. Que tipo de gente nossos filhos elegerão?

Robson Dombrosky disse...

Pois é... É a velha questão de saber eleger os representantes. Uma idéia que achei ótima e que aconteceu durante a campanha da última eleição, foi a de enviar aquelas correntes de emails, mas ao invés das tradicionais porcarias, anexar um arquivo com o nome de todos os candidatos que tiveram envolvimento em alguma sujeira. Ótimo para refrescar a memória dos eleitores e conferir se o seu candidato não está com o nome sujo na praça.

Cristina disse...

Como estudante de Pedagogia, ouço muito a respeito do que vc escreveu...e o pior é que, o que vc disse ironicamente, ouço alguns professores dizer a mesma coisa, porém seriamente (esperançosamente, repito mais uma vez o "alguns").
Professores e artigos afirmam que a criança deve ser criada no anarquismo. Por que impor as sujas regras da sociedade? Deixe-a criar sua própria política!!!Pois bem, desde os anos 60 que esta teoria foi criada...está aí o resultado e ninguém percebe.

Atualização: aos finais de semana
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