29 outubro 2007

Caveira, meu capitão!

Você considera o BOPE desumano? Ou você o vê como um mal necessário? Ou ainda, você saiu tão empolgado do cinema que foi direto comprar um pôster do Capitão Nascimento e agora só trata seus amigos por 02, 04 ou xerife? Faça aqui o teste.

O filme tropa de elite está fazendo o maior sucesso. É o assunto do momento. É tema de debates filosóficos e também de outros, nem tão filosóficos assim. Verdade seja dita, o filme é empolgante mesmo. Mas é violento, é forte. Apesar destes ingredientes, apresenta um diferencial interessante sobre certas produções ianques medíocres, onde as atrações limitam-se ao sangue cenográfico atirado aos baldes nos telespectadores e seus personagens, figurantes morrendo e berrando do início ao fim – geralmente berrando primeiro e morrendo depois. No filme do BOPE, também tem muita gente berrando, e, diga-se de passagem, dando bastante ênfase aos colóquios de conotação sexual... Apesar disso, Tropa de Elite tem um algo a mais. Para começar, ele te prende na poltrona, de verdade. Assistindo ao filme no cinema, sem o recurso do botão de pausa, quase molho as calças por me recusar a ir ao banheiro, arriscando assim a perder alguma cena importante. O filme também nos faz pensar bastante, é um verdadeiro convite à reflexão. Narrado por um oficial do Batalhão de Operações Policiais Especiais, ele mostra as ações de repressão ao tráfico de drogas nos morros cariocas, sob o ponto de vista daquele batalhão.

Com a divulgação do filme, os homens de preto da polícia do Rio acabaram conquistando uma legião de fãs, mas, como não poderia deixar de ser, também são a pedra no sapato de muita gente. Ambos os times, fãs e incomodados, baseiam suas opiniões em argumentos já bastante conhecidos. É sabido, por exemplo, que não só de traficantes vive o morro. Além disso, argumenta-se que nem mesmo os criminosos poderiam ser sumariamente executados, mas sim encaminhados à justiça, para serem julgados, sentenciados e, após cumprirem a pena cabível, serem reabilitados e reintegrados à sociedade. Em se tratando da Justiça e do sistema carcerário brasileiro, isso infelizmente acaba soando como um conto de fadas. Sendo assim, e já que papel aceita tudo, por que não criar um final mais bonito para este conto: O traficante reabilitado salvaria a princesa das garras do dragão, casar-se-ia com ela e viveriam felizes para sempre no reino do samba, da caipirinha e das mulatas.

Voltando ao planeta Terra, vemos, do outro lado da discussão, os simpatizantes do BOPE, que, fartos da guerrilha urbana promovida pelos chefes do tráfico, apostam todas as suas fichas nos policiais treinados para guerra, combatendo a todo o custo a criminalidade que há tanto tempo atormenta a cidade maravilhosa. Mas, por falar em chefes do tráfico, quem são eles afinal de contas? Seriam os patrões do morro? Ou seriam os engravatados, donos das indústrias de processamento e distribuição das drogas?

É preocupante, no entanto, ver a maneira como a garotada geralmente reage ao filme. Na saída do cinema, exclamações do tipo “O BOPE é que tá certo, tem é que matar tudo mesmo” são bastante comuns. Há de se ter cuidado. Não é prudente condenar o BOPE e impedir sua ação, mas também não se deve incutir nas pessoas essa sede de sangue. Até porque, estas mesmas pessoas podem perfeitamente estar sendo coniventes, ou até mesmo cúmplices do tráfico, como tão bem apontaram algumas cenas do filme.

Quando penso no BOPE, acabo fazendo algumas analogias. Vejo nele uma ferramenta ou recurso que deveria estar sempre disponível, mesmo que não seja usado, como por exemplo, um extintor de incêndio. Quando um grande edifício é construído, todo um sistema de prevenção de incêndios é elaborado. As instalações elétricas são dimensionadas, materiais anti-chama são selecionados, usuários são orientados sobre atividades de risco, enfim, tudo é feito para se evitar um princípio de incêndio. Apesar de se esperar que o prédio nunca pegue fogo, não se abre mão do extintor de incêndio. Ele precisa estar lá, pois se o fogo surgir, deveremos possuir meios de combatê-lo.

O BOPE seria esse extintor de incêndio. Ele não é a solução para os problemas do tráfico, é apenas um recurso usado para controlá-lo. Se seu efeito é ou não decisivo no combate à violência, já são outros quinhentos, mas de qualquer forma, não se pode deixar os traficantes agindo ao bel-prazer, para tomarem conta da cidade. A real solução é bem mais complexa. É o combate ao sucateamento da educação e à desigualdade social. Resumindo, é toda aquela história que já virou até clichê de campanha eleitoral, uma conversa que, apesar de estar mais gasta que fundilho de tropeiro, nunca deixou de ser verdade.



01 outubro 2007

É, estou ciente que isso aqui anda devagar...

Estou demorando para postar devido a algumas condições adversas... Não, ainda não foi dessa vez que eu desisti disso aqui. Preciso tocar adiante uns trabalhos paralelos que estão com o prazo perto do fim.

Em breve uma atualização que preste...

23 setembro 2007

E que venha a Burocracia!

Ai de nós, moradores de casas de estudantes, engajados com a conservação da sua estrutura física, tentando salvá-la das ameaças constantes das paredes mofadas, das fossas entupidas e das telhas rachadas. Ai de nós, estudantes a quem foi designado o trabalho hercúleo de reunir a documentação que viabilizará, quem sabe, um repasse de recursos financeiros, capaz de livrar nossa casa dos males citados. Para tanto, somos conduzidos através dos corredores frios e escuros das partições públicas, verdadeiras masmorras onde somos aprisionados por horas a fio, em busca de valiosas folhas de papel timbradas, carimbadas e assinadas.

Depois de superado o sufoco e concluído o garimpo, chega a ser cômico apreciar a montanha de papéis que é preciso juntar para provarmos que estamos habilitados a receber o tal benefício. Certidão disso, comprovante daquilo, declarações e atestados aos quilos. Para solicitar um documento é preciso emitir outros cinco. Para validar esses cinco, outros quinze devem ser autenticados em cartório, criando assim uma bola de neve, que esperamos, não venha a rolar por sobre nossas cabeças.

É mais um capítulo da odisséia brasileira da inversão de regras e valores. Hoje, acompanhamos as aventuras de 16 estudantes universitários, que assim como o resto dos brasileiros, já nasceram estelionatários e precisam despender muito tempo até conseguirem provar o contrário. Para isso, partem em busca da pilha de papéis mágicos, o único artefato que tem o poder de convencer os órgãos públicos que estes estudantes pretendem dar o correto fim ao dinheiro recebido.

Provar que somos idôneos não é tarefa das mais fáceis. Se pelo menos fôssemos políticos influentes ou mega empresários, a coisa mudaria de figura. Neste caso, seríamos automaticamente transformados em pobres vítimas de acusadores inescrupulosos, que surgiriam a todo o momento tentando nos derrubar.

A tão mal falada burocracia, ou “burrocracia”, como alguns preferem chamá-la, apesar de sua incrível habilidade de trancar processos, atrasar obras, ou até mesmo impedir procedimentos que salvam vidas, segue ditando o ritmo de crescimento do país. É uma pena que, diante da ganância natural do bicho homem, surja a necessidade de se criar cada vez mais artifícios na tentativa de conter a corrupção. Com tantas barreiras, esperava-se que fosse impossível, ou pelo menos muito difícil praticá-la. Lamentavelmente, a única dificuldade imposta pela papelada parece ser mesmo a quantidade de tinta requerida para impressão dos documentos frios. Talvez, um sistema mais enxuto, e consequentemente, mais inteligente, pudesse se tornar também um pouco mais eficiente.

Enquanto isso não acontece, seguimos desbravando valentemente essa floresta de papel. A menos que você seja um marciano ou um indigente, terá que se embrenhar pelo mesmo caminho em algum ponto da sua vida. Quem nunca teve a honra de praguejar contra este patrimônio da administração pública, que se apresente: pegue uma senha no balcão, preencha três guias de cadastro, autentique sete cópias com reconhecimento de firma em cartório, pague as taxas devidas e por gentileza, tenha a bondade de liberar o balcão.

O próximo!




Atualização: aos finais de semana
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