Atualização: aos finais de semana
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22 Novembro 2008

Afinal, pra que ir de moto?

Desde que comecei a viajar de moto, há uns poucos anos, os itinerários só fizeram crescer. A primeira grande viagem, a travessia do deserto do Atacama, no Chile, sacramentou de vez a decisão de, dali em diante, passar a fazer o possível para preencher os magros trinta dias de férias anuais com projetos parecidos. De início com uma Yamaha XT 225 e agora com a XT 600, alguns milhares de quilômetros já foram percorridos em pelo menos uma centena de tipos diferentes de estradas.

Quando falamos de motoviagens, estamos combinando dois ingredientes que interagem muito bem entre si que são, obviamente, viajar e andar de moto. A sensação de liberdade com o vento batendo no corpo, apesar de já exaustivamente descrita e enaltecida por uma infinidade de motociclistas mundo afora, continua sendo pauta obrigatória de dez entre dez histórias de motoviajantes. Também unânimes são os comentários que costumamos ouvir dos amigos e conhecidos: Cara, tu é louco! E não cansa? E não acha perigoso? Tentemos, como sempre, olhar a questão sob outro ponto de vista. Aos que não se limitam a sonhar acordados e aceitam certos desafios, muitas recompensas estão reservadas. Só para começar, belas paisagens cortadas por estradas que vão muito além do caminho nosso de cada dia para o “trampo” ou para a “facul”, constituem detalhes que definitivamente não deveriam ser irrelevados.

Ei! Mas se tudo gira ao redor de paisagens bonitas e novos caminhos, então não preciso necessariamente de uma moto para usufruir deles! Montanhas, praias azuis, campos verdes e atoleiros, lindos e pegajosos atoleiros. Não seria mais interessante ir ao encontro deles dentro de um luxuoso 4x4? Que tal um Land Hover com ar condicionado, frigobar e, quem sabe, até um mordomo no porta malas? Afinal, a tecnologia está aí, batendo à nossa porta. Qual a necessidade de recusar semelhante tentação? Paixão doentia por indiadas? Masoquismo? Síndrome de Indiana Jones?

A verdade é que quem vai de moto viaja na janela, e não no corredor. Quanto menos aparatos e facilidades existem à volta do viajante, mais contato ele tem com o local visitado. Muito se engana quem pensa que as únicas coisas às quais o motociclista está exposto são a chuva, o frio e as pontas de cigarro atiradas pelos motoristas de dentro dos carros. À medida que certas proteções saem de cena, saem também diversas redomas que nos separam do contato direto com os lugares visitados. Como redoma, leia-se, por exemplo, uma excursão cheia de adolescentes e seus fones de ouvido, que pegam um vôo de São Paulo a Santiago e são recolhidos por transfers de hotéis, que os levam para tirar fotos do chafariz da praça central da cidade. Alguns dias depois retornam felizes e satisfeitos por terem tido aquela ótima oportunidade de “conhecer o Chile”.

Pessoalmente, acredito que viajar significa muito mais do que passar dias relaxando em uma banheira de hidromassagem com um coquetel de frutas na mão. Logicamente, cada coisa tem o seu devido valor, mas a viagem parece adquirir um sentido muito mais completo quando se busca interagir com um meio deixando-se expor à cultura local. Para que isso seja verdadeiro, deveríamos partir sempre da premissa que sou eu, o visitante, quem devo interagir com o meio e não o contrário - minha presença não deve gerar uma interferência neste meio.

Se conseguirmos agir desta forma, acredito que a viagem terá sido muito mais completa e proveitosa. Depois disso, para quem ainda estiver interessado, uma sessão de fotos lá no chafariz poderá ser perfeitamente incluída nos planos.

09 Novembro 2008

As manhãs de domingo.


Na semana passada, o GP do Brasil encerrou com chave de ouro o campeonato de Fórmula 1 de 2008 , com emoções há anos não vistas. Para ser mais exato, desde a época em que o saudoso Ayton Senna nos brindava com seus shows dominicais, não ouvíamos com tanta frequência a música tema da vitória brasileira na fórmula 1. Depois que Felipe Massa assumiu o volante da Ferrari, no entanto, essa musiquinha se tornou bem mais freqüente e a vitrola pôde finalmente sacudir a ferrugem acumulada, já que para funcionar vinha dependendo da confluência dos planetas Júpiter e Plutão, único fenômeno que fazia com que Rubens Barrichelo tivesse alguma sorte nas pistas.

Apesar de em 2008 termos novamente nos acostumado às vitórias brasileiras na F1, parece que essa música não soa mais da mesma forma como soava nas vitórias de Senna, já que foi com o nome dele sendo anunciado por Galvão Bueno que a melodia emplacou de vez: “Lá vem Ayrton Senna na ponta dos dedos pra receber a bandeirada, já vai apontar na reta, lá vem ele, Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil!!” Tan tan tan.... tan tan tan...

O talentoso Felipe Massa que me perdoe a sinceridade, mas ouvir essa música tocando para ele é como vestir um terno caro que, apesar de muito bonito, parece ter sido feito sob medida para outra pessoa, ainda que, na verdade, essa música tenha sido encomendada pela Globo no início da década de 80, portanto, antes de Senna.

Quem tem hoje mais de 25 anos certamente se lembra dos duelos de Senna com seus maiores rivais de pista: Alain Prost, Nigel Mansell e Nelson Piquet. Nessa época, as corridas tinham alguns temperos a mais, ou alguns aparatos eletrônicos a menos. Antes, por exemplo, da revolucionária “suspensão ativa” - a menina dos olhos da equipe Williams em 1991, bastava uma tomada na câmera on board dos carros para que testemunhássemos a sensação de estar à bordo de uma britadeira sobre rodas, somada à ausência do câmbio semi automático, o que fazia com que os pilotos ficassem uma boa parte do tempo com apenas uma das mãos ao volante, enquanto a alavanca de mudança de marchas precisava ser acionada. Pouco a pouco, novos recursos iam sendo implantados nos carros das equipes, sendo que as menos favorecidas acabavam ficando por muito mais tempo sem certas regalias. Foi exatamente o que aconteceu com Senna no início da sua carreira, fato que nunca o impediu, no entanto, de aplicar surras memoráveis nos seus oponentes, ainda que equipado com um carro inferior.

Hoje a fórmula 1 continua contando com grandes pilotos: Felipe Massa, Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Kimi Raikkonen são realmente bons, mas seus talentos são invariavelmente ofuscados pelo brilho do maior de todos. E é claro, não podemos nos esquecer de Michael Schumacher, que com toda aquela cara de repolho azedo, conquistou nada menos que sete campeonatos mundiais. Sem dúvida um grande nome, mas cá entre nós, gostaria muito de ter visto o desempenho dele naquela Lotus que Senna pilotou entre 1985 e 1987.

Para quem não acompanhou, ou para quem está com vontade de recordar o talento do fantástico Ayrton Senna, vale muito a pena assistir o vídeo abaixo, em minha opinião, a melhor prova da genialidade do piloto, que em 1994 teria seu brilho apagado de forma trágica na curva Tamburello do circuito de Ímola, na Itália. Simplesmente imbatível na chuva, Senna larga em quarto no GP da Europa em 1993 e, sem tomar conhecimento dos adversários, faz diversas ultrapassagens ainda na primeira volta, nesta que ficou conhecida como a “volta de placa”, assim como Pelé e seu lendário gol de placa.

http://mais.uol.com.br/view/84871

Da mesma forma como ocorreu com Pelé, a impressão que fica é que, por mais que surjam grandes talentos, nenhum vai conseguir igualar a genialidade de Ayrton Senna da Silva.