De moto no deserto do Atacama – Parte 5
Saindo da Argentina, entrei no Chile e atravessei o seu estreito território até atingir o Oceano Pacífico, na altura das cidades de Viña del Mar e Valparaíso.
Foto 113 – Robson, gostaria de te apresentar o Sr. Pacífico.
- Muito prazer, sou o Robson, estou de passagem e estive cogitando a idéia de molhar os pés em suas águas... Caramba Sr Pacífico! Você é um cara bem frio hein?
- Bem, é que normalmente sou assim com quem ainda não conheço!
Foto 114 – A extensa costa Chilena: ao norte do país, mar e deserto praticamente se encontram.
Foto 115 – Deixando Viña del Mar para trás, no início de um longo dia de pilotagem pela ruta 5, a Rodovia Panamericana.
Foto 116 – O pôr-do-sol no oceano, um espetáculo que o Brasil não consegue assistir, pois está “deitado eternamente em berço esplêndido”, mas de costas para o palco!
Foto 117 – Caçambas dos caminhões gigantes usados na extração de minério de cobre. Estão sendo transportadas da capital Santiago, onde foram fabricadas, até Chuquicamata, no norte do país, local da maior mina de cobre a céu aberto do mundo. Quando cheguei lá, a visitação à mina estava interrompida. Uma lástima!
Foto 118 – O monstruoso dono da caçamba amarela mede modestos sete metros de altura, e só o seu pneu possui mais de três metros de diâmetro. Um caminhão comum, que também não é nada pequeno, quase some debaixo da peça descomunal. O comboio viaja de madrugada durante uma semana, a 40 km/h e ocupando as duas pistas da estrada.
Foto 119 – O entardecer no deserto. Cerca de 12 horas de pilotagem neste dia, atravessando a região mais seca do mundo.
Foto 120 – A geografia explica tamanha aridez: no lado do oceano, as correntes frias impedem a formação de nuvens, e do outro lado, os 6.000 metros de altitude da cordilheira dos Andes impedem a passagem das nuvens vindas da Argentina.
Foto 121 – Chegando a Copiapó, cidadezinha acanhada e sem grandes atrativos turísticos. Vive em função das atividades de mineração de diversos metais nos arredores.
Foto 122 – A rodovia Panamericana é a maior do mundo, percorrendo toda a América, do extremo sul da Argentina até o Alasca, em nada menos que 48.000 km! Já repararam na quantidade de vezes que eu já usei as expressões “o maior” ou “o mais” do mundo?
Foto 123 – Subindo o monte Panaral, em mais um desvio na rota principal. As montanhas ao fundo apresentam tonalidades bastante peculiares, o que faz com que a algumas fotografias mais se assemelhem a pinturas. Mas espere só até ver a parte 6!
Foto 124 – Lá em cima do monte foi construído o Observatório Astronômico Panaral. O céu do Atacama, muito límpido devido à altitude local, estabilidade atmosférica e escassa umidade, é o melhor lugar que existe para se realizar observações astronômicas.
Foto 125 – Novamente rumando para leste, eis que os Andes ressurgem no horizonte. Do outro lado daquela cadeia de montanhas começa a Bolívia.
Foto 126 – Isto é o que geralmente acontece quando viajo sozinho: surtos de loucura e a ausência de alguém que me questione sobre onde raios estou com a cabeça, me fazem sair da estrada e trafegar alguns quilômetros em direção a lugar nenhum. A moto deixa marcas em um solo onde possivelmente nunca ninguém havia pisado.
Foto 127 – É impressionante o sentimento de euforia que este lugar, no meio do nada e desprovido de tudo consegue transmitir. É uma sensação estranha: olhar ao redor e descobrir-se totalmente sozinho em meio a tamanha imensidão.
Foto 128 – Estar sozinho, mas não sentir-se só, nem mesmo no mais absoluto vazio do deserto.
Foto 129 – Vulcão Licancabur, na fronteira entre Chile e Bolívia. Repare nesta foto, a divisão das cores: são três faixas horizontais bem definidas, como se fosse uma bandeira de algum país. Incrível não?! Ou eu é que estou empolgado demais?
Foto 130 – Chegando à pitoresca cidadezinha de San Pedro de Atacama, onde acampei durante quatro dias. Esta placa marca o início da parte mais arriscada da viagem.
Foto 131 – A cidade fica dentro de um oásis no deserto.
Foto 132 – No dia seguinte saí para a primeira incursão. Para cada um dos quatro dias estava reservado um passeio para diferentes atrações da região. No caminho, pequenos vilarejos isolados e seus cachorros perseguidores de motociclistas.
Foto 133 – Pequena igreja no povoado de Toconao, no caminho para os altiplanos chilenos.
Foto 134 – Outra igreja de pedra, à beira do caminho de chão batido.
Foto 135 – Subindo! O destino de hoje são os lagos altiplânicos, a mais de 4.200 metros de altitude.
Foto 136 – Esta planta dá um colorido característico aos campos da região.
Foto 137 – Milhares delas, quando vistas de longe, formam esse tapete amarelo aos pés das montanhas. Seu tom vivo se junta ao azul do céu para formar uma das combinações mais fotogênicas que já vi.
Foto 138 – Rumo ao desconhecido! Sem contar com recursos tais como um GPS, gastei algumas horas trocando idéias com habitantes locais e tentando aprender as manhas e as armadilhas dos caminhos. Meu maior desafio neste dia foi encontrar o ponto exato onde esta estrada é interceptada por outra menor, que me levaria de volta ao acampamento no fim do dia.
Foto 139 – Fiquei tentando decifrar estas marcações à beira da estrada. Quilometragem? Coordenadas geográficas talvez? Ou apenas palpites para o jogo do bicho?
Foto 140 – Máquina valente... Dominá-la nestes terrenos não é tarefa das mais fáceis. O piloto ralou um bocado, mas ela sentiu-se em casa!
Neste ponto ainda estou na metade do caminho até as Lagunas Miscanti e Miñique. Na próxima parte, o impressionante visual (mesmo!) de suas águas azuis e da miscelânea de cores ao longo de todo o caminho. Durante o retorno, um contratempo quase estraga o resto da viagem.
Nenhuma grande aventura parece ser completa sem as dificuldades inerentes, que invariavelmente precisam ser superadas. A vida por si só já é uma grande aventura, onde para cada percalço existe uma solução esperando para ser encontrada. Uma vez que a localizamos, nada nos resta a não ser sacudir a poeira das roupas, subir na moto e acelerar!
Foto 141 – Seguindo o caminho que leva aos lagos azuis. A cada curva uma surpresa, uma nova paisagem, um novo desafio.
Foto 142 – Rodando a 4.000 metros de altitude, os picos nevados já não parecem mais tão distantes.
Foto 143 – Um dia inteiro na estrada : A beleza das paisagens me detinha muito mais do que a precariedade dos caminhos. Difícil resistir a muitos quilômetros sem nenhuma parada para fotos.
Foto 144 – A subida continua e a estrada vai ficando cada vez mais acanhada. Nesse momento começo a ficar apreensivo pela ausência de sinais dos lagos...
Foto 145 – Até que ele surge, com seu azul inacreditável, por trás de uma elevação. Eis o Lago Miscanti em todo o seu esplendor.
Foto 146 – Não consigo conter a empolgação ao vislumbrar semelhante vista. Uma sonora exclamação (que não será reproduzida aqui) exprime toda a minha euforia e perturba a tranqüilidade das inocentes vicunhas que pastavam no sossego destas terras.
Foto 147 – O que mais que eu posso dizer? Sinceramente, meu vocabulário de elogios já está quase no fim. Por favor, me ajudem!
Foto 148 – Vulcão que leva o mesmo nome do lago. Devido a minhas perambulações, pude observá-lo a partir de diversos ângulos.
Foto 149 – O lugar certamente merecia uma atenção especial. Larguei a moto na beira da estrada e me aproximei do lago.
Foto 150 – Grande parte dessas águas provém de infiltrações subterrâneas. No inverno é possível observar a superfície quase toda congelada.
Foto 151 – Frio de altitude: Casaco no lombo, mesmo sendo verão e com o sol a pino.
Foto 152 – Alguns quilômetros adiante, o lago Miñiques, irmão menor do Miscanti.
Foto 153 – Deixando os lagos para trás e seguindo adiante pela estradinha que, após uns 30 km, desemboca no Passo de Sico, uma das rotas de travessia entre Chile e Argentina.
Foto 154 – O caminho continua presenteando o viajante com cenários cinematográficos. Lagos, depósitos de sal e montanhas coloridas.
Foto 155 – Nesta curva eu parei para almoçar. Desliguei a moto, sentei em uma pedra e destruí o sanduíche de presunto e queijo que trazia na bagagem.
Foto 156 – Olhando para esta imagem, você diria que se trata de uma foto ou de um desenho? Se eu não tivesse disparado pessoalmente a máquina fotográfica, hoje teria sérias dúvidas.
Foto 157 – Outro exemplo da vida imitando a arte. Muitos desses lagos mudam de cor de acordo com o horário do dia. Cada um tem sua característica própria, mas todos são igualmente fascinantes.
Foto 158 – Esta placa me trouxe um pouco de volta à realidade, pois eu já estava começando a me imaginar em algum lugar bem distante do planeta Terra.
Foto 159 – Ufa! Encontrei o caminho de volta, aquele que não constava em meus mapas. É esse aí, seguindo em direção àquelas montanhas lá no fundo. Remoto, perdido, isolado, pouquíssimo usado e principalmente, em PÉSSIMO ESTADO!
Foto 160 – Foram 350 km de estrada de chão neste dia. No trajeto de retorno, trechos que iam do horrível ao quase intrafegável. Esta foto foi tirada em uma das melhores partes, e logo antes de...
Foto 161 – De eu me estatelar no chão, traído por montes de areia fofa que surgiram no meu caminho em um raro momento que consegui atingir 60 km/h. A XT 600 carregada caiu com seus quase duzentos quilos por cima da minha perna. Foram dois minutos para conseguir sair debaixo dela e mais uns quinze para conseguir levantá-la novamente.
Foto 162 – De volta ao acampamento, avaliando o saldo do escorregão: um inchaço do tamanho de um ovo de galinha no local onde o estribo da moto atingiu a perna. A 4.000 km de casa e com uma dor fortíssima na perna, eu não sabia nem como faria para ir ao banheiro, muito menos como seguiria viagem. Não conseguia mais raciocinar, por isso apenas fiquei ali, deitado na barraca, esperando pela chegada do dia seguinte e torcendo para que até lá eu pelo menos conseguisse apoiar a perna no chão.
Foto 163 –San Pedro do Atacama, a cidadezinha ao norte do Chile onde montei o acampamento base para as andanças no deserto. A cidade contava apenas com um postinho de saúde acanhado, sem o recurso do raio X, onde a única coisa que pude solicitar foi a colocação de um gesso na perna atingida, servindo como pára-choques para a área sensibilizada. Pude assim tentar seguir viagem.
Foto 164 – Na verdade, para conseguir caminhar, tive que arrancar toda a parte do gesso que cobria e imobilizava o pé. Aqui apareço dando os retoques finais no gesso com meu canivete modelo “Magaiver”. Depois de uns três dias a dor acabou diminuindo consideravelmente e passei a caminhar quase normalmente.

