10 Outubro 2008

MotoViagem

Nesta semana, o site Inema publicou o relato e as fotos daquela minha viagem ao Deserto do Atacama, realizada em fevereiro de 2008. Enquanto faziam isso, solicitaram que eu respondesse um senhor questionário sobre viagens de moto, pois pelo que entendi pretendem elaborar uma matéria a partir do material. Eis o dito cujo:

Inema: Qual a sua profissão?
Robson: Atualmente técnico em mecânica. A partir de 2009 engenheiro mecânico.

Inema: Tem alguma relação entre o seu trabalho e a sua paixão por viagens?
Robson: Gosto de mecânica, o que aumentou meu interesse por motos, especialmente pelo modelo da minha atual, que considero uma das melhores opções para este tipo de aventura, por ser robusta e confiável. Mas um interesse por viagens tem mais a ver com a pessoa em si, com a filosofia de vida de cada um, independente da atividade profissional. Digo isso porque acredito que viajar seja muito mais do que visitar lugares bonitos, tirar fotografias e comprar cartões postais.

Inema: Quando começou a ser motociclista? Como foi o começo? Por que começou?
Robson: Comprei minha primeira moto, uma CG 125 ano 92 em 1998. Na época eu tinha 19 anos e o único veículo de duas rodas que eu estava autorizado a pilotar era a minha bicicleta. Mas a ansiedade era tamanha (principalmente por ver ela ali, estacionada na garagem) que eu não descansei enquanto não vi o “A” estampado na minha carteira de habilitação. Minha primeira alegria na moto foi seguir livremente no trânsito engarrafado do verão de Florianópolis, rumando em direção às inúmeras praias da cidade onde me criei.

Inema: Como começou a sua paixão por aventuras? Foi na infância? Qual o maior estímulo? Teve incentivo de alguém? Quem?
Robson: Não me lembro de um grande ídolo ou aventureiro que me inspirasse na infância. No entanto, fiz viagens memoráveis de carro com minha família, o que certamente acendeu uma chama que acabou nunca mais apagando. Tive uma excelente infância e desde muito cedo me acostumei à liberdade.

Inema: Quando começou a gostar de motos? Como foi o seu início? Por que viajar distâncias tão longas com moto?
Robson: De motos mesmo só comecei a gostar a partir do momento que passei a ter uma. Mas o meu gosto pela locomoção sobre duas rodas sempre existiu, desde a época em que eu fazia misérias com a minha valente bicicleta. Mais tarde, já com a CG 125, me acostumei com a mobilidade, e é claro, com a economia de gasolina que ela proporcionava em relação a um carro. Logicamente existiam os contratempos do frio e da chuva, mas sempre achei que os benefícios compensavam os eventuais desconfortos. Daí para as grandes viagem foi só questão de tempo e amadurecimento, onde eu me dei conta que as lembranças e o crescimento que elas trariam eram coisas com as quais eu gostaria de poder contar pelo resto da vida.

Inema: O que te inspira a fazer viagens desse tipo?
Robson: Principalmente a ampliação de horizontes. Como comentei na última parte do relato da minha viagem ao Atacama, essas experiência têm a capacidade de despertar curiosidades e impulsionar descobertas, nos fazendo perceber a pequenez do nosso mundinho perante a imensidão daquilo que permanece fora do alcance dos nossos sentidos. Outro motivo são os cenários. Venho tomando bastante gosto pela fotografia e, na medida do possível, tenho tentado me aperfeiçoar nessa arte.

Inema: Qual foi o roteiro da viagem? Qual foi o principal motivo da escolha dele?
Robson: Saí de São Leopoldo, próximo a Porto Alegre, desci até o Chuí, percorri uma boa parte do litoral uruguaio, entrei na Argentina por Buenos Aires, atravessei todo o país de leste a oeste, ingressei no Chile na altura de Viña del Mar, subi costeando o Pacífico até encontrar o Deserto do Atacama, me embrenhei na sua aridez até desembocar no norte da Argentina. Em direção a leste, atravessei novamente os pampas até o Brasil, sem deixar de visitar diversos sítios arqueológicos dos 30 povos das missões Jesuíticas. Acho que o Atacama despertou em mim um certo fascínio e me trouxe a determinação para a viagem. No caminho, o que não faltaram foram atrações igualmente impressionantes.

Inema: Arrependeu-se de alguma escolha do roteiro? Qual? Por que se arrependeu?
Robson: Meu único arrependimento, ou melhor, minha única frustração é poder contar somente com 30 dias por ano para fazer esse tipo de atividade. Quisera eu poder viajar mais por aí, fazendo fotos e escrevendo sobre meus destinos. Tenho certeza que isso daria um acervo bem interessante, pois dentre outras coisas, é o que eu realmente gosto de fazer.

Inema: Quais as principais dificuldades que você encontrou no início?
Robson: Sinceramente não me lembro de nenhuma grande dificuldade, mas em se tratando de viagem de moto, o planejamento logístico se torna crucial. Passei longas horas planejando e bolando soluções das mais diversas.

Inema: O seu trabalho foi prejudicado por causa das viagens?
Robson: De forma alguma. Tenho aproveitado as férias profissionais, que faço coincidir com as acadêmicas.

Inema: Como você faz para conciliar trabalho, viagens e família?
Robson: Faltou “estudos” na lista! Acho que a resposta se resume a duas palavras: bom senso. O resto é consequência.

Inema: Qual o conselho que você dá para quem não consegue organizar o tempo entre esses campos da vida?
Robson: Sente, pegue caneta, papel e planeje. Procure valorizar e ter mais contato com aquelas pessoas que têm algo a te acrescentar, algo além de gargalhadas em uma mesa de bar. Já vi pessoas de mais idade se lamentando por terem ignorado esta dica.

Inema: Quais são as suas dicas para quem quer começar a fazer moto viagens? Quais são os principais cuidados que precisam ser tomados?
Robson: Antes de mais nada, para que uma “loucura” seja bem sucedida é necessário uma boa dose de maturidade. Controverso, não é mesmo? Mas faz muito sentido. Outras dica são:
- Esteja preparado para situações de desconforto, faz parte da brincadeira. Se não estiver disposto, recomendo procurar por outras alternativas, tais como cruzeiros no Caribe ou Hotéis em Gramado.
- Conheça sua moto, leve ferramentas e, de preferência, saiba realizar pequenos reparos. Você vai entender o que eu estou falando quando seu pneu furar no meio da Patagônia, a 500 km da civilização e em uma estrada por onde passam cerca de três carros por semana. Arranje um manual de serviços e leve consigo.
- Leve o mínimo necessário. Comece a arrumar a bagagem com uma semana de antecedência e saiba onde está cada coisa.
- Leia muito sobre seus destinos. Veja o quanto a internet tem a lhe oferecer além de orkut e msn.
- Monte planilhas com seu check-list e com o roteiro da viagem.

Inema: A sua família não fica apreensiva quando você vai fazer alguma moto viagem? O que eles te dizem?
Robson: Eles sempre dizem “vai com Deus e ju-í-zo, viu!!” Quando eu tinha 18 anos minha mãe me “proibiu” terminantemente de comprar uma moto. Mas ela mesma tinha e ainda tem a sua. Acredito que eles fiquem apreensivos sim. Eu também ficaria e, inclusive, pretendo proibir terminantemente meus filhos de comprarem uma moto!

Inema: Já sofreu algum acidente mais grave nas suas viagens? Como aconteceu? Onde? Quando? Por quê?
Robson: Grave, graças a Deus, não. Na última viagem no entanto, tomei um tombo no meio do deserto do Atacama, quando a XT 600 carregada caiu com seus quase duzentos quilos por cima da minha perna. Foram dois minutos para conseguir sair debaixo dela e mais uns quinze para conseguir levantá-la novamente. O saldo foi um inchaço do tamanho de um ovo de galinha no local onde o estribo da moto atingiu a perna. De volta ao acampamento, a 4.000 km de casa e com uma dor fortíssima no local do impacto, eu não sabia nem como faria para ir ao banheiro, muito menos como seguiria viagem. Não conseguia mais raciocinar, por isso apenas fiquei ali, deitado na barraca, esperando pela chegada do dia seguinte e torcendo para que até lá eu pelo menos conseguisse apoiar a perna no chão. Segui viagem e, depois de uns três dias, a dor acabou diminuindo consideravelmente e passei a caminhar quase normalmente.

Inema: O que você tem vontade de fazer em sua vida que não fez ainda? Por que não fez? Pretende fazer? Quando?
Robson: Essa pergunta dá uma tese! Mas, de forma geral, tenho feito as coisas no tempo certo, pois cada fase da vida nos reserva suas particularidades. Por isso, seguindo-se o curso natural das coisas, ainda tenho muito o que realizar, mas até o momento, não deixei nenhuma grande pendência que precisará ser cumprida em caráter retroativo.

Inema: Tem alguma coisa que o faria desistir de viajar de moto? Se tiver, qual e porquê?
Robson: No momento não consigo pensar em nada. Mas pode haver sim.

Inema: A sua vida mudou muito depois que começou a aventurar-se em viagens de moto? Por quê? De que forma ocorreu essa mudança?
Robson: As mudanças na vida são graduais e constantes e essas viagens seguramente acrescentam muitos tijolos à parede.

Inema: O investimento empregado nas viagens é muito alto? Compensa? Por quê?
Robson: Os gastos podem variar muito, dependendo do seu estilo de viagem, mas as maiores despesas costumam ser com combustível (o seu e o da moto) e, caso não simpatize muito com barracas, uma boa parte da despesa vai ser com hospedagem. Se compensa ou não cada um tem que avaliar, isso é muito pessoal. Eu acho que compensa cada centavo. Mas cada um é cada um. Muita gente não entende o porquê de eu pagar para rodar 13 horas em um dia debaixo de chuva e frio, assim como eu não entendo como alguém consegue gastar R$ 500 em um jeans.

Inema: Hoje, qual a sua principal motivação para trabalhar? E a motivação para viajar? Qual é a mais gratificante? Por quê?
Robson: Sempre que consigo assisto ao programa “Passagem para”, exibido no canal futura e produzido pelo jornalista/viajante Luis Nachbin. O programa é uma bela inspiração e também gera em mim uma grande motivação.

Inema: Pensa em fazer uma nova viagem? Para onde?
Robson: Penso sim. Em fevereiro de 2009 pretendo descer até o Ushuaia, no extremo sul da Patagônia. Em outra ocasião Peru e Bolívia, ou quem sabe, algum destino dentro deste nosso belo país.

Inema: Qual o papel empregado por sua família no apoio à prática das motos viagens?
Robson: Acredito que família seja a base de tudo, por isso devo muito a eles. Hoje moro longe de casa, mas sei que eles estão lá, sempre na torcida para que tudo saia bem e que na volta o filho traga boas histórias e belas fotos!

3 COMENTÁRIO(S). DEIXE O SEU:

Léo Fernandes disse...

Comentando um trecho da entrevista: "É preciso maturidade para que uma 'loucura' seja bem sucedida".

Sim, é preciso maturidade para que a loucura fique bem delimitada e não tenha como causar estragos numa área muito grande, caso as coisas não dêem certo.

É o que os gringos chamam de sandbox e que os mais jovens tendem a não valorizar, confiantes em sua suposta invulnerabilidade.

100 Moto Grupo disse...

Parabéns, Cara! Passei por alguns lugares (de carro), há alguns anos, e suas fotos me levaram novamente ao Atacama - magnífico!

Mariana (prima) disse...

Deu até vontade de comprar uma moto e sair por aí!!!!!

Atualização: aos finais de semana
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